Neste começo d'ano em tam bom dia,
Tam claro, porque não faleça nada,
Me foi da vossa parte apresentada
Vossa composição boa a porfia.
De que espanto me encheu quanto ali via!
E mais em parte ca tam desviada
Sempre até gora da direita estrada
De Clio, de Caliope e Talia.
Oh que enveja vos hei a esse correr
Pola praia do Lima abaixo e arriva
Que tem tanta virtude de esquecer,
O que estes tristes coraçõis aliva,
Do pesar igualmente e do prazer
Passado, que não quer que inda homem viva.

Caminha teve tambem, muito cedo, amizade com Sá de Miranda. O sr. Theophilo Braga attribue mesmo a essa circumstancia uma parte da celebridade de que aquelle gosou.

A Ferreira nunca Sá de Miranda viu. Pois não era dos que menos o adoravam pela sua vida integra e caracter austero e admiravam pela sua grande obra de renovação litteraria. Mais tarde, Ferreira lamentou acerbamente nunca se haver encontrado com o poeta da Tapada.

Ah meu bom mestre, ah pastor meu amigo,
Como minha alma e os olhos se estendiam
Por ver-te, e o duro tempo foi-me imigo!
Mas inda que os meus olhos te não viam
Cá te tinha minha alma, e teus bons cantos
Lá me levavam, e de ti todo enchiam.

A geração, que se vinha manifestando exuberante de talento, encarava com a mais commovida veneração e respeito o grande poeta que tanto trabalhara pelo florescimento das lettras patrias. Conhecia que muito e muito se devia a esse homem verdadeiramente nobre e justo. Da forma como o considerava, dá idêa o admiravel retrato que Ferreira d'elle traçou.

Chamar-te-hei sempre bem aventurado.
Que tanto ha que em bom porto co essas santas
Musas te estás em santo ocio apartado.
Não esperas, não temes, não te espantas;
Sempre em bom ocio, sempre em sãos cuidados,
A ti só vives lá, e a ti só cantas.
Os olhos soltos pelos verdes prados,
O pensamento livre, e nos céos posto,
Seguros passos dás e bem contados.
Trazes hua alma sempre n'um só rosto,
Nem o anno te muda, nem o dia,
Um te deixa Dezembro, um te acha Agosto.
Quam alta, quam christã philosophia,
De poucos entendida nos mostraste!
Que caminho do céo, que certa guia!
De ti fugiste, e lá de ti voaste,
Lá longe, onde teu sprito alto subindo
Achou esse alto bem que tanto amaste.
Novo mundo, bom Sá, nos foste abrindo
Com tua vida, e com teu doce canto,
Nova agua e novo fogo descubrindo.

Particularidade digna de mencionar-se e que o sr. Theophilo Braga nota: todos os poetas que se filiavam em a escola italiana e se dirigiam a Sá de Miranda, começavam por contar-lhe a sua vida, como para mostrar que era immaculada e que merecia a amizade delle. Tanta respeitabilidade infundia esse homem de um caracter integro e puro.

Sá de Miranda sentia um vivo prazer ao observar o triumpho de seus esforços. Quasi immediatamente surgiu uma serie de cataclysmos que veiu matar o poeta logo tambem pera todas as cousas de seu gosto e antigos exercicios.

A deploravel catastrophe de Ceuta, em 1553, em que pereceu a flôr da cavallaria portugueza, custou-lhe a preciosa vida de seu filho primogenito Gonçalo Mendes, ambição risonha de seu futuro, enlevo de sua alma, carinho de seu coração amantissimo. O poeta sentiu-se ferido rudemente por esse desabar de toda a sua esperança, de toda a sua felicidade futura.

Os vates da nova escola procuraram consolar a dôr de Sá de Miranda com sentidas elegias. Ferreira dirigiu-lhe uma suavemente melancolica, vívida, procurando mitigar a dôr do attribulado pae pela idêa da morte gloriosa do filho que caira combatendo pela patria.