Oh alma bem nacida, que em tal guerra
Ganhaste uma tal vida, honra e gloria
Quem morte lhe chamar contra ti erra.

Sá de Miranda respondeu a Ferreira com outra elegia, vibrante da dôr mais profunda que pode exacerbar o coração de um pae extremoso. A sua magoa não lhe impede, porém, de admirar o talento do joven adepto da nova escola e de o incitar a continuar na vereda encetada.

Vem um dando á cabeza e conta ufano
Cousas do seu bom tempo, ardendo em chamas
Polas que fez: todo al lhe é claro engano.
Andão se ás razõis frias polas ramas
Um vilancete brando, ou seja um chiste,
Letras ás invençõis, motes ás damas,
Ua pregunta escura, esparsa triste!
Tudo bom! quem o nega? mas porque,
Se alguem descobre mais, se lhe resiste?
E como, esta era a ajuda? esta a mercé?
(Deixemos ja as mercés) este o bom rosto?
De menos custa em fim que este tal é?
E logo aqui tam perto, com que gosto
De todos Boscão, Lasso, erguérão bando,
Fizerão dia, ja quasi sol posto!
Ah que não tornão mais! vão se cantando
De vale em vale de ar mais lumioso
E por outras ribeiras passeando.

A idêa de que a sua obra seria continuada por uma geração cheia de talento mitiga o pezar de Sá de Miranda. Desejava, porém, não ter de lamentar esse filho perdido em tão tenra edade: dezeseis annos. Como invejava a sorte d'aquelle Mestre Dom Rodrigo, chorado por seu filho Jorge Manrique!

Nos sonhamos aqui, tu vas te ao ceu.
Ditoso aquele mestre dom Rodrigo
Manrique, a quem em seu tempo louvou
O filho e deu ao corpo em morte abrigo.
Era ela conta igual que quem entrou
Antes á vida, saisse primeiro?
Eu sou que devera ir! quem nos trocou?
......................................
Vai te a boa ora; não tens de que devas
Temer; la tudo é paz, tudo assossego!
Quem leva um tal seguro qual tu levas?

Não se apagara ainda a saudade do filho querido e já uma nova desgraça feria o coração do poeta. A esposa virtuosissima, D. Briolanja, faltou-lhe em 1555. Sá de Miranda entregou-se a extremos de sentimento senam dignos do animo de hum tam grande Philosopho, devidos pollo menos á estimaçam que com seu profundo juizo fez daquella perda.

Sá de Miranda sobreviveu ainda tres annos ao desapparecimento d'esse ente querido e, como affirma a Vida, por testemunho de pessoas que conheceram o poeta, nunca mais sahio de sua casa, senão pera ovir os officios Divinos, nem apparou a barba, nem cortou as unhas, nem respondeu a carta que lhe alguem escrevesse até que acabou de todo.

Vivendo ainda tres annos despois de sua mulher, nam se acha que composesse mais que hum Soneto que fez á sua morte. Foi digna cupula posta á sua obra poetica.

Aquele esprito, já tam bem pagado
Como ele merecia, claro e puro,
Deixou de boa vontade o vale escuro,
De tudo o que ca viu como anojado.
Aquele esprito que, do mar irado
D'esta vida mortal posto em seguro,
Da gloria que la tem de herdade e juro
Ca nos deixou o caminho abalisado.
Alma aqui vinda nesta nossa idade.
De ferro que tornaste a antiga de ouro
Em quanto ca regeste a humanidade,
Em chegando ajuntaste tal tesouro
Que para sempre dura! Ah vaidade!
Ricas areas d'este Tejo e Douro!

Como se não fossem poucos os desgostos a abrirem-lhe a cova, os ultimos dias de Sá de Miranda ainda passaram amargurados com a noticia da morte do principe D. João, uma promessa para o paiz, quasi a seguir a do infante D. Luiz e, por ultimo, a de el-rei D. João III, o seu grande e nobre amigo, em 1567. Sá de Miranda sobreviveu apenas oito mezes a esta ultima e fulminante desgraça que vinha mergulhar o reino em as dissenções de uma funesta regencia.