O poeta da Tapada, o grande auctor da ecloga Basto, falleceu a 15 de março de 1558, com mais de sessenta e oito annos de edade. Recebeu modesta, mas digna sepultura, ao lado de sua mulher em a capella de Santa Margarida da egreja de S. Martinho de Carrezedo, em o arcebispado de Braga.
Muito sentida a morte do grande poeta por todos os adeptos da nova escola litteraria a que Sá de Miranda servia, por assim dizer, de elo. Não fosse o espirito do respeitado mestre que se apagára. Tinha-se bem presente aquelles versos de Ferreira em que tão bem se synthetisa a grande obra de Sá de Miranda:
Novo mundo, bom Sá, nos foste abrindo
Com tua vida, e com teu doce canto,
Nova agua e novo fogo descubrindo.
Terminando
A Vida, o precioso documento anonymo que acompanha a segunda edição, de 1614, das obras poeticas de Sá de Miranda, serviu de guia e de base ao nosso estudo biographico-critico. Como tivemos occasião de ver, no que respeita a fixação de factos, ella nem sempre é veridica, deixando muito a desejar. Erra assim na data que attribue ao nascimento do poeta e em dizer que elle estudou leys mais em obsequio ao gosto del Rey Dom João o Terceiro... que por inclinação que tivesse áquella maneira de vida, phrases que reproduzimos atraz para accentuar as boas relações em que estava a sua familia com a casa real, não por as tomarmos á lettra.
Essas faltas do anonymo biographo, a nosso ver, em nada desmerecem o valor do documento que nos legou sobre a vida do glorioso solitario da Tapada. Ha grandes lacunas na Vida, erros de vulto, mas ella é bem realmente collegida de pessoas fidedignas que o conhecerão—ao poeta—e tratarão e dos livros das gerações deste Reyno. Tivemos occasião de o verificar notando a concordancia dos seus dados com os offerecidos pelos diversos nobiliarios e genealogias manuscriptas a que precisamos recorrer.
Uma d'essas genealogias, a Nobresa de Portugal e Espanha, de Manuel Faria e Sousa, em seu titulo dos Sãs de Francisco de Sá de Miranda, senhores da quinta da Tapada, teria poupado a muitos escriptores o engano de dar ao poeta como mãe a avó, se fosse consultada. Ella diz expressamente:—Gonçalo Mendes de Sá, filho 2.º de Felipa de Sá e de seu marido João...
Como deixamos dito, a carta de legitimação do poeta dá o nome da mãe de Sá de Miranda. Á obsequiosa amabilidade do erudito investigador sr. Sousa Viterbo, devemos o saber que ella se chamava Ignez de Mello. Pertenceria esta senhora á geração dos Mellos de Coimbra? Seria nobre? Occuparia elevada posição social? São perguntas que suggere a particula de anteposta ao nome de familia e que resta averiguar. Que era uma mulher de bem affirmam-o os nobiliarios.
Não estão estes de accordo sobre se Sá de Miranda foi o filho primogenito do conego Gonçalo Mendes. Haja sido ou não, é incontestavel que o poeta possuia bens proprios. A familia dos Sás era das mais ricas e importantes do paiz.
Como se sabe, Garcilaso falleceu em 1536. Sá de Miranda compôz para o primeiro anniversario da morte do grande lyrico hespanhol a ecloga Nemoroso em que evidencia o mais intimo conhecimento não só de suas poesias como de sua propria vida. Das poesias tomou conhecimento pelo manuscripto com que o brindou o seu querido amigo Antonio Pereira. O saber de sua vida devia-o decerto a relações pessoaes, achando o sr. Theophilo Braga, natural que durante a sua viagem na Italia tivesse Sá de Miranda encontrado Garcillaso.