«D'aqui o identificar os dois poetas em um unico; como conseguil-o? Considerou a individualidade poetica de Cristovam Falcão como uma lenda estupida formada pelos genealogistas, e formou o nome de Crisfal indo buscar á tôa ás palavras Crisma falsa, tirando-lhes as syllabas iniciaes para designarem a seu talante Bernardim Ribeiro.»
Do artigo «Movimento litterário»
«Cotejámos então as referências de Bernardim a Francisco de Sá com a alusão que na écloga de Crisfal haviamos interpretado como visando esse poeta, e qual não foi a nossa alegria, a nossa viva satisfação ao reconhecer que os versos de Crisfal que alvejavam Miranda condiziam perfeitamente com as referências das éclogas de Bernardim ao seu grande amigo e confidente! Não condiziam apenas: completavam, aclaravam, a nosso ver, essas alusões.
«Fez-se então uma grande luz no nosso espírito. Não se tratava de dois poetas muito parecidos, de um creador e de um imitador. Bernardim Ribeiro e Crisfal eram um ùnico poeta. O trovador Cristovam Falcão era o produto de uma lenda nascida da interpretação dada pelo vulgo ao anagrama Crisfal.
«E, para que o nosso convencimento mais se robustecesse, lá estavam os dizeres alusivos á ecloga de Crisfal da edição de Colónia, revelada pelo snr. dr. Th. Braga, e estudada pelo snr. Epiphánio Dias: «que dizem ser de Cristovam Falcão, ao que parece aludir o nome da mesma écloga.»
«Que dizem ser... ao que parece aludir...
«Isto, a nossos olhos, era decisivo. «Os editores de 1559 das obras de Bernardim Ribeiro, e antes de eles os de 1554, como depois viemos a apurar, tinham registado com relação á écloga uma fábula que devia datar da primeira edição das Trovas de Crisfal, etc.»
«Alcançada a convicção de que Crisfal era um anagrama de Bernardim Ribeiro, e norteados pelo conhecimento de que nas suas produções o poeta mudava constantemente os seus nomes pastoris, com um pequeno trabalho de raciocínio não nos foi dificil deduzir a constituição do criptograma, que era formado pelas primeiras sílabas das palavras Crisma e Falso.»
«Bernardim deduziu o anagrama com que se denomina n'esta écloga das palavras Crisma e Falso, de que aproveitou as primeiras sílabas, formando assim a palavra Crisfal.
«Os nomes pastoris que figuram n'esta écloga, obedecendo á ideia que fundamentou a composição, são todos êles crismas falsos, sendo dificil profundar quaes as personagens reaes que o poeta pôs em scena, o que deu lugar a erradíssimas interpretações, contribuindo para que tomasse vulto a lenda, que resultou do próprio anagrama Crisfal, que foi tomado como deduzido dos nomes de Cristovam Falcão.»
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«Mas, como se póde chamar estupida a lenda genealogica se os nomes contidos na écloga de Crisfal condizem com os seus parentes taes como o de Pantaleão Dias de Landim, seu avô, e a Joanna, que lhe denuncia o casamento clandestino, uma prima, como o notou o snr. Jordão de Freitas?»
Do artigo «Movimento litterário».