Aconteceu encolerisarem-se muitas vezes duas ou tres pessoas da nossa equipagem na aldeia, em que estavam. Vieram por isto os Principaes ao Forte de São Luiz queixarem-se e pedindo, que lhes tirassem de lá esses Francezes, porque lhes faziam medo, e especialmente a seos filhos, o que conseguiram.
Si as questões de palavras e as raivas são temiveis, muito mais ainda o são os insultos e as disputas, o que é muito raro, a ponto de espancarem-se, o que chamam ionupan «espancar-se», e ainda mais quando se ferem, o que explicam por iuapichap, «ferir-se,» mormente quando depois de se haverem maltratado reciprocamente vão por despeito queimar as suas casas, o que exprimem pela palavra Iuapic «incendiarios» reciprocos: todos sentem estas coisas, e ninguem se atreve a metter-se entre elles para aplacal-os: eis como fazem: vae cada um para seu lado, e tomando uma porção de pindoba secca, acendem-na, atiram sobre a cobertura de sua propria casa, dizendo uns aos outros—salve quem poder sua casa, queimei a minha, ninguem podia oppôr-se a minha vontade, e assim em poucos momentos a aldeia está queimada e ninguem lhe diz nada.
Aconteceria isto muitas vezes na Ilha, se não fosse o receio que tinham dos Francezes.
Não gostam de ser injuriados, seja homem ou mulher, e nem mesmo as publicas consentem que se as chame Pataqueres «meretrises.»
Recorda-me que tendo tido uma india escrava um filho de um Francez, as outras lançaram-lhe isto em rosto chamando-a Pataquere, «meretriz» com o que se doeu muito, e disse que, se continuassem, ella mataria seo filho ou o enterraria vivo.
Chamam a injuria Curap.
Ninguem se admire de evitarem estes selvagens a colera e seos effeitos, por ser esta paixão contraria a natureza do homem, fazendo-o inteiramente bruto, como disse São Basilio Magno, na Homilia 10, da ira, e transformar o homem n’um animal feroz—Hominem penitus in feram converti: São Gregorio de Nissa, na Oração 2ª sobre a bemaventurança, compara a colera com esses antigos feiticeiros do Paganismo, que por encanto mudavam e transformavam o homem em diversos animaes ferozes como o javaly e a panthera. A colera faz o mesmo.
São Gregorio Magno, no 5º livro da sua Moral, cap. 30, diz ser o cerebro do colerico o buraco, onde se geram as víboras.—Cogitationes iracundi viperæ sunt generationis.
Platão contra esta paixão aconselhava, como remedio, aos seos discipulos, que observassem bem os gestos e as palavras de um homem colerico, e ou que se mirassem n’um espelho quando se enraivecessem.