Não sabemos como se effectuou esta viagem, nem si elle foi para Pariz, e nem tão pouco si foi em sua terra natal buscar um azylo no Convento dos Capuchinhos,[Q] fundado apenas alguns mezes depois da sua partida.
Os archivos da cidade d’Evreux, nada dizem a tal respeito, e nem tambem relativamente á missão brasileira, parecendo-nos dever esperar-se do acaso o apparecimento de documentos biographicos, cuja existencia nem se suspeita.
O historico da segunda missão dos Capuchinhos franceses em Maranhão, completamente ignorada por Berredo e outros escriptores portuguezes, não nos deixa na mesma incertesa quanto aos missionarios, que succederam á Ivo d’Evreux e aos seos companheiros.[R]
Sabemos que chegaram em 15 de junho diante da nascente cidade, que cantaram um Te-Deum no dia 22 do mesmo mez, no rustico Convento principiado a edificar por seos antecessores, e tambem não ignoramos hoje, que elles previram o máo exito da missão.
Ignoramos o que fez o Padre Arcanjo no Convento de São Luiz, porem quasi que se pode dizer, que não imitou o zelo dos Padres Ivo d’Evreux e Arsenio de Pariz, sendo tão mal succedido em seos esforços que até appareceo a desunião «entre as coisas da Colonia, augmentada ainda com a chegada dos portuguezes, que se assenhorearam do paiz.»
O piedoso biographo, cuja narração nos serve do guia, diz, que o novo Superior administrou o baptismo a 650 indios, porem accrescenta logo, que sem duvida estes pobres selvagens não ficaram por muito tempo fieis á religião, que abraçaram, voltando a sua antiga idolatria: «não chega a sessenta os christãos sinceros, e n’esse numero estão incluidos vinte meninos.» Si se encontrasse uma biographia cheia de particularidades e de aventuras do Monge escossez, de que tracta o velho historiador da Ordem, taxando-a de muito exagerada, provavelmente n’ella se encontrariam narrações minuciosas de sua missão na America. Infelizmente este livro, se existe em alguma bibliotheca pouco conhecida, é tão raro como o de Francisco de Bourdemare, e temos sido infelizes nas diversas pesquizas, que até hoje fizemos com o fim de offerecer aos nossos leitores um extracto do seo contheudo.[S]
Suspeitamos que o Padre Arcanjo de Pembroke deixou muitos dos seos confrades no Convento dos Capuchinhos recentemente edificado, e que regressou para França ao fim de 1614 no navio do Capitão Pratz, que levou á Paris Gregorio Fragoso, sobrinho de Jeronymo de Albuquerque, incumbido d’uma missão diplomatica, que devia discutir-se em Lisboa.
Recolhido á sua cella no Convento da rua de Santo Honorato, o Padre Ancanjo facilmente esqueceo-se do Brasil[T], tomou parte nos acontecimentos politicos do seu tempo, vieram de novo as dignidades da Ordem procural-o, e viveo no grande mosteiro até o momento, em que Richelieu chegou ao apogeo do seo poder.
Os amadores das viagens antigas, aquelles que prescrutam ainda com interesse as lembranças espalhadas aqui e ali, e com as quaes se deve compôr a historia das nossas Colonias, mais gloriosa do que se pensa, não se demoraram n’essas particularidades, e antes desejaram saber como o Maranhão escapou aos esforços corajosos do bravo Ravardiere.
A Historia Geral do Brasil, publicada ultimamente pelo veridico Sr. Adolpho de Varnhagem lhe responderá com mais promptidão ainda do que o poeta laureado Southey. Ahi lerão como as forças portuguezas, expedidas d’esde outubro de 1612 para expellir os francezes do seu novo estabelecimento, de que tinha ciumes a Corte de Madrid, ainda em Maio de 1613 foram reforçadas por Jeronymo d’Albuquerque vindo do Ceará, onde combinou com Martim Soares nos meios de ser bem succedida essa expedição sob seo commando, a qual se antolhava irriçada de difficuldades.