De Pernambuco ainda vieram reforços indispensaveis, e por isso em 23 d’agosto começou o bloqueio das forças francezas, porem no dia 19 de novembro, Ravardiere á frente de 200 soldados d’infantaria, e de 1500 indios atacou com energia os sitiadores de sua nascente cidade; perdeo-se ahi o bravo Pezieux n’uma imprudente tentativa por não ter executado as ordens do seu chefe mais experiente do que elle.
Tomaram por sua vez a offensiva os portuguezes, e em pouco tempo, apesar da sua reconhecida habilidade e do seu notavel valor, foi obrigado o Chefe da nova Colonia a concordar n’um armisticio, cujo desenlace seria terminado perante as Cortes de Madrid e de Pariz, para as quaes appellaram ambas as partes belligerantes.
Antes de chegar a este ponto vio Ravardiere de seo exercito cem homens mortos e nove prisioneiros. Pode dizer-se, que si sua resistencia foi a de um bravo, como tal ja reconhecido, o procedimento, que então ostentarão seos adversarios, foi em todo o sentido generoso, porem, força é dizer que depois de convenções tão livremente estipuladas, e quando em 3 de Novembro de 1615 entregou Ravardiere com todas as solemnidades o Forte de São Luiz á Alexandre de Moura appareceo um acto de deslealdade manchando esta campanha tão nobremente terminada. Ravardiere deixou o Maranhão e foi em companhia de Alexandre de Moura para Pernambuco, d’onde partio em pouco tempo para Lisboa, e ahi no Forte de Belem soffreo rigorosa prisão, que não durou menos de tres annos.[U]
Pelo que acabamos de dizer vê-se facilmente, que a Cidade de S. Luiz, a florescente Capital de uma das mais ricas Provincias do Brasil, é uma Cidade de origem absolutamente franceza, e a Camara Municipal assim felizmente o comprehendeo por haver ainda ha pouco tempo feito surgir das ruinas os modestos edificios, que attestam esta epocha, provando com isto, e ao mesmo tempo, ausencia de patriotismo mesquinho e sentimento de bom gosto.[V]
Mas voltando ao livro, que nos prende a attenção, façamos conhecer a sorte caprichosa, que o esperava em França. Despertaremos tambem com o bom Religioso algumas reminicencias, com que se pode enfeitar a poesia.
Menos infeliz na apparencia que João de Lery, tão bem classificado com o appellido de «Montaigne dos velhos viajantes,»[W] Ivo d’Evreux durante 15 annos não vio seo manuscripto, extraviado por um infortunio, que o ferio completa e absolutamente.
Enviado aos Superiores da Ordem este livro, complemento do de Claudio d’Abbeville, foi destruido antes de haver apparecido. Impresso por Francisco Huby, em cujas officinas já havia sido edictada a obra do seo companheiro, foi inteiramente dilacerado.
Francisco Huby, dizemos com pezar, deixou-se n’essa occasião seduzir, e esquecendo-se dos deveres inherentes á sua profissão, não se importou em ser o instrumento d’uma vingança politica tão mesquinha.
É de suppôr, que o motivo, que fez prender Ravardiere no Forte de Belem, levantou tambem mãos sacrilegas para destruir na rua de São Thiago o precioso volume, no qual se expunham com admiravel sinceridade as vantagens para a França, provenientes da expedição de 1613.
Entre a impressão da viagem de Claudio d’Abbeville, e a do livro, que é sua continuação, deo-se um acontecimento politico d’alto alcance.