Foi resolvido o casamento de Luiz XIII, ainda menino, com uma princesa hespanhola[X], e um partido inteiro mostrou muito interesse em dissipar qualquer sombra, que prejudicasse a casa de Hespanha.
Os projectos de conquista d’America do Sul não acharam mais apoio, e desde então empregaram-se todos os meios afim de ser esquecido um projecto de conquista, com que ja se havia inquietado a Hespanha, chegando-se até a destruir completamente a simples narração dos incidentes d’essa missão ja passada ha tanto tempo, embora escripta com toda a calma e conveniencia.
Quando se deo este acto arbitrario havia em França um homem, que ligava muito interesse á obra e ao seo auctor.
Felizmente Francisco de Razilly não cahio no captiveiro, que paralisava todos os esforços de Ravardiere, e pode até affirmar-se, que não perdeo de vista, por um só momento, as vantagens, que seo paiz podia tirar de uma Colonia, cujos primeiros passos elle tinha dirigido. Sabendo que hia ser destruido o volume do Padre Ivo d’Evreux, apezar de impresso inteiramente, foi á imprensa de Huby para vêr se obtinha um exemplar: ou porque não fosse com toda a promptidão, ou porque ja se tivesse dado começo a destruição da obra, apenas poude salvar algumas folhas por si ou por meios subtis de um seo agente, as quaes reunidas mostraram a lamentavel perda de diversos fragmentos, e com essas lacunas tão importantes foi impossivel formar um exemplar completo. Mandou o Almirante imprimir o seu protesto em outra parte, e não nas officinas da rua de Sam Thiago, juntou-o ao livro, encadernado com todo o luxo, tendo na frente as armas da casa de França, e foi leval-o, não á Maria de Medicis, antiga protectora da Colonia do Maranhão, e sim a Luiz XIII.
O menino rei ainda na anno antecedente tinha brincado muito com tres pobres selvagens Tupinambás, dos quaes fora padrinho, e suas recordações eram ainda tam frescas, que de vez em quando esboçava os grotescos ornatos, com que se enfeitavam os nossos indios:[Y] leo talvez algumas paginas do bello volume, que Razilly lhe offereceo, e n’isto ficou todo o seo interesse. Richelieu ainda não era Superintendente da sua marinha, e ainda dormiram na Corte por muitos annos os projectos de longas navegações.
O livro do Padre Ivo, junto ao do Padre Claudio, foi posto nas estantes da bibliotheca, e ahi todos os deixaram em paz.
Foi no tempo do digno Van-Praet, no principio de 1835, que o autor d’esta noticia teve a felicidade de encontral-o. Seria occioso o dizer como o feliz descubridor ficou surprehendido lendo esta agradavel narração, tão sincera em suas menores particularidades como preciosa pelas suas uteis noticias. Para comprehender bem o seo valor basta dizer-se, que o nosso bom missionario demorou-se dois annos, onde seo veneravel companheiro apenas demorou-se quatro mezes. Desde então appareceo Ivo d’Evreux n’uma serie de artigos, que publicava a Revista de Pariz a respeito dos antigos viajantes francezes, e na verdade sem desvantagem, ao lado do Padre du Tertre, a quem Chateaubriand justamente chamou o Bernardin de Sant’Pierre do 16º seculo.
Este artigo, cujo menor defeito era sem duvida alguma o ser pouco desenvolvido, formou n’esse mesmo anno uma pequena brochura, publicada em casa de Techener, e immediatamente esgotou-se a edicção.
Desde essa epocha não foi mais Ivo d’Evreux de todo desconhecido aos amadores das viagens antigas, aos homens de bom gosto, que buscam avidos de curiosidade os escriptores esquecidos, percursores do grande seculo. Preoccupado, mais do que se crê na Europa, de suas tradicções poeticas, e de suas nascentes glorias, o Brasil saudou o nome do velho viajante, e lhe deo um lugar entre os homens pouco conhecidos, mas que devem ser consultados quando se tracta dos tempos primitivos.
O Imperador D. Pedro, que occupa um lugar entre os bibliographos mais illustrados, e que tem decidido gosto pelas raridades bibliographicas, que derramam alguma luz sobre as antiguidades do seo vasto Imperio, mandou extrahir uma copia, sendo depois imitado seo exemplo!