O unico exemplar, pertencente á bibliotheca imperial d’ahi em diante foi lido e relido:[Z] uma phalange de escriptores habeis e zelosos, que exhumaram do pó a historia do seo bello paiz, o chamaram em testemunho de suas asserções, Adolpho de Varnhagem, Pereira da Silva, Lisboa o auctor do Timon, e no ultimo lugar o sabio Caetano da Silva, o citaram entre as melhores autoridades, que se pode invocar sobre as crenças dos indios, e assim o fizeram sahir da obscuridade, em que jazia.
Não tinha a França prestado attenção a estes testemunhos de estima para dar ao Padre Ivo d’Evreux o lugar, que merecia. Se Boucher de la Richarderie não tivesse pronunciado seo nome, levantando o mais que poude o de Claudio d’Abbeville, o Sr. Henrique Ternaux Compans não o incluiria na sua preciosa collecção dos viajantes conhecedores da antiga America. O Sr. d’Avezac o cita com destincção e faz sobre-sahir suas boas qualidades.
Todos estes testemunhos de admiração para com o humilde escriptor, que sem ostentação sacrificou sua obra, infelizmente tem concorrido pouco para tirar sua vida da obscuridade, e não sabemos em que auctoridade se baseia um sabio bibliographo para dizer que elle viveo até 1650.[AA]
Á vista d’um volumoso manuscripto da bibliotheca imperial pensamos um dia que ião ser esclarecidas todas as nossas duvidas sobre os principaes pontos da biographia do nosso escriptor, porem assim não aconteceo. Os elogios historicos de todos os grandes homens e de todos os illustres religiosos da Provincia de Pariz infelizmente só dão noticias relativas aos religiosos de Santo Honorato, de Picpus, e de S. Thiago.[AB] Chegou-se até a dizer na obra, que havendo o Padre Paschoal d’Abbeville[AC] separado sua Provincia da Normandia em 1629 não devia procurar-se n’esta compilação o nome dos Religiosos, que não residiram em Pariz.
Não se deve esquecer de todo a excitação puramente litteraria, que se experimentou em França logo depois da chegada dos selvagens brasileiros, que desembarcaram sessenta annos antes em Ruão ou em Pariz. Estes apparecimentos successivos d’indios, seguidos sempre de narrações mais ou menos notaveis, levão evidentemente o espirito a pensar nas bellezas primitivas da natureza, o que produz encantos e amplidão de ideias.
D’esta influencia não se livrou o nosso Montaigne, como elle revellou em algumas palavras espirituosas, que escreveu a proposito d’uma cantiga brasileira.
Os dois maiores poetas d’aquelles tempos, tão differentes entre si e comtudo tão approximados, se abalaram a ponto de dedicarem particular attenção a esses habitantes das grandes florestas, por acaso misturados com os cortezãos de França, que invejavam seos gosos pacificos, e a tranquillidade de suas existencias.
Ronsard não é de parecer que estes homens, que lembram a origem do Mundo, percam sua feliz innocencia, e por isso insta com os visitantes para que não troquem a sua ignorancia pelos cuidados da civilisação.[AD]