Malherbe tambem a respeito d’elles entreteve por muito tempo o douto Peiresc, por meio de cartas, onde dizia que a paz e a alegria estava em imital-os.
Suas dansas inspiraram os mais delicados cortesãos, e um dos mais habeis artistas de Pariz fez com as suas arias uma especie de dança muito agradavel, cuja descripção nos deixou o poeta.[AE]
Poderiamos ainda citar outros exemplos d’esta subita predilecção pela independencia dos pobres indios, e especialmente pelo magnifico paiz, que habitam.
Conforme estes poetas, a cuja frente deve collocar-se Bartas,[AF] é n’esta fonte vital, que pode restaurar-se por novas comparações um estro quasi a exhaurir-se.
Sem duvida alguma todos estes antigos viajantes, completamente esquecidos durante um seculo, exerceram real influencia no seo tempo, e ainda mais alem, como se pode provar á vista dos escriptos de Chateaubriand: a singelesa de suas narrações e a frescura de suas pinturas inspiraram os grandes escriptores, já cuidadosos de abandonarem nas suas descripções os typos ajustados ou estudados, e de influirem ou attrahirem só pela verdade.
Ivo d’Evreux não foi somente um pintor habil, um narrador sincero, e sim tambem um observador perspicaz dos costumes de uma raça, para assim dizer extincta, e que não se poderia consultar frequentemente.
Para escolher um só exemplo entre muitos, que elle offerece, basta dizer-se, que foi o unico, que descreveo os verdadeiros idolos, modelados em cera, ou esculpidos em madeira pelos indios.
Hans-Staden, Thevet, Lery e o proprio Gabriel Soares, tão prolixos á respeito do culto do maracá, guardam silencio relativamente ao que então se rendia á essas estatuasinhas modeladas grosseiramente, sem duvida, pelos habitantes nomades das grandes florestas, as quaes com tudo servem para mostrar um principio da pratica nascente da arte: assim elle o confessa n’estas palavras: «Este mau costume crescia e estendia-se pelas aldeias proximas de Juniparão.» Depois accrescentou, que seo companheiro o Revd. Padre Arsenio encontrou estes idolos na visinhança dos bosques.... Ora, pode-se deduzir d’este trecho curiosa inducção, não sem interesse para a archeologia futura de um grande Imperio, e vem a ser, que no começo do XVII seculo notavel mudança se tinha já feito nas ideias religiosas do grande povo da costa.
Sem duvida, n’esse tempo ja os Piagas tinham visto imagens nas igrejas, que se edificavam em varias partes do litoral: com a maravilhosa facilidade d’imitação, innata nos indios, ja no fim do XVI seculo tinham representado em estatuas alguns dos numerosos genios de suas florestas. Estes primeiros idolos foram infelizmente modelados em madeira, e embora houvesse grande copia d’elles, nenhum, ao menos que o saibamos, é conservado nos museos ethnographicos do novo Mundo, estabelecidos em varias localidades. Os Tupinambás, apenas chegaram na visinhança do rio das Amazonas, receberam ideias mais adiantadas de povos mais civilisados que elles: a poderosa nação dos Omaguas, por exemplo, cujas tribus vinham das regiões peruviannas, poderia ter influido sobre a arte grosseira, de que entre elles encontraram se tão curiosos especimens. Note-se, que estes importantes factos são, em geral, absolutamente despresados pelos escriptores portuguezes, e por isso não é pequena gloria para a nossa litteratura antiga, o ter possuido escriptores, dotados de genio tão observador á ponto de prestarem muita attenção ao estudo d’estes objectos.