Entre os que se misturaram com estas nações infelizes, no principio do seculo XVII, não conhecemos, na verdade, senão um unico viajante portuguez, cuja narração encantadora deve estar ao lado das de João de Lery e do Padre Ivo d’Evreux.[AG]

Foi Fernando Cardin, Superior dos Jesuitas ainda em 1609, e que visitou os indios do Sul depois de haver por muito tempo administrado as aldeias dos Ilheos e da Bahia. Bem que este Missionario não possa, pela importancia de documentos, comparar-se a Gabriel Soares,[AH] a quem se deve recorrer sempre que se queira, ter ideia exacta da nacionalidade dos indios, e da emigração das suas tribus, comtudo muito se lhe assimelha pelo seo estylo: como elle despresa os preconceitos, ama os selvagens, e com animação pinta admiravelmente o indio na sua aldeia, dando-nos a saber a grandesa, cheia de sinceridade, do seo caracter.

A descripção do Padre Ivo d’Evreux não é, somente, mais um documento de grande importancia, que se ajunta á historia do Brasil com o fim de provar unicamente factos tendentes á fundação da Cidade de S. Luiz e sim para os francezes tem outro genero de merecimento.

Pela sincera elegancia de sua dicção, pela cor habilmente destribuida de seo estylo, pela perspicacia de suas observações, e, pode tambem dizer-se, pelo sentimento apurado das bellesas da naturesa, que mostra o seu autor, ella pertence á serie de escriptores francezes, continuadores da epocha de Montaigne, e prognosticadores do grande seculo. Ivo d’Evreux, si fosse lido, teria nesse tempo influido, como alguns annos antes, João de Lery, que descreveo scenas analogas áquellas que elle tão bem soube pintar. Claudio d’Abbeville, escriptor muito menos habil do que elle, foi o continuador d’esta influencia litteraria.

Si no retiro, por elle escolhido, e que cremos, não sem fundamento, ter sido em Ruão ou Evreux, ou mesmo no arrebalde de Sant’Eloy, soubesse o Padre Ivo qual foi a sorte definitiva dos seos charos indios, sua alma se teria entristecido profundamente.

Depois de expulsos os francezes, foi Jeronymo d’Albuquerque nomeiado capitão-mór do Maranhão sendo Francisco Caldeira Castello Branco designado para continuar os descobrimentos e conquistas nas regiões do Pará.

Dos esforços combinados destes dois officiaes resultou a fundação da risonha Cidade de S. Luiz e da de Belem.

Estas duas Cidades edificaram-se pacificamente, sem opposição alguma da parte dos indios, que até ajudaram os consideraveis trabalhos, exigidos para a construcção d’ellas, e muitos d’elles acompanharam até um Official chamado Bento Maciel ás margens do rio Pindaré em busca de immensas riquezas metalicas, que se desconfiava existirem por ahi algures: fatal expedicção, cujo resultado foi somente a destruição dos Guajajaras.

Os Tupinambás inegavelmente não eram mais hostis aos portuguezes, e viviam sob a direcção de Mathias d’Albuquerque, filho do governador; mas nem por isso deixavam elles de lastimar a ausencia de seos antigos alliados. Ja não residiam nos arrebaldes da cidade nova, e sim no districto de Cumã em numerosas aldeias. Indo um dia o seo chefe europeo ter com seo pae, que o mandou chamar, passaram por Tapuitapera alguns indios vindos do Pará, trasendo cartas para o capitão-mór de S. Luiz. Um Tupinambá convertido ao christianismo, por nome Amaro, aproveitou-se da passagem dos seos compatriotas para executar um plano terrivel.

Tomou uma das cartas, abrio-a, e fingindo lel-a[AI] dirigio-se aos chefes das aldeias, e declarou-lhes que o fim d’estas missivas era uma abominavel trahição, urdida pelos portuguezes, que tinham resolvido, atreveo-se elle a dizer, reduzil-os á condicção d’escravos.