Despresaram todas as riquezas, procurando salvarem-se agarrados a um pedaço da escotilha, a uma taboa, ou ao bote.
Esperou o Arraia grande, que todos procurassem meios de salvarem-se, e afinal elle, sua mulher, e um interprete francez si puzeram a nadar animando elle a todos com estas palavras—«a morte é invejosa, vêde como atira estas ondas sobre a nossa cabeça afim de nos arremeçar no abysmo, mostremos-lhe que somos ainda fortes e valentes, e que não é chegado o tempo de nos levar.»
Salvaram-se todos em varias ilhas não habitadas, excepto um francez, victima de tubarões.[51]
Vendo o Arraia grande os francezes nús e famintos, em lugares estereis e cercados de mar, atirou-se ás ondas, a nado atravessou grande espaço cheio de mangue desembaraçando-se á muito custo das raizes destas arvores, e do tujuco onde as vezes se enterrava até o pescoço.
Chegando a aldeia dos seos similhantes animou-os a virem com algumas canoas, vestidos e viveres, e depois que todos regressaram ás aldeias defronte do lugar do naufragio, elle lhes entregou tudo quanto haviam perdido, e que o mar tinha atirado ás praias.
Outr’ora este indio, n’um navio de São Maló, veio a França, onde se demorou um anno pouco mais ou menos, e em tão pouco tempo aprendeo a fallar francez, e ainda hoje se fazia entender bem, embora ja se houvessem passado muitos annos, e tem tão bom juiso e memoria que ainda hoje conta varias particularidades, que la existem.
Não trato do estado espiritual, e nem do que me disse relativamente ao Christianismo, porque deixo isso para o seo lugar proprio, mas quanto ao temporal muitas vezes o ouvi dizer aos seos similhantes, e especialmente aos Tabajares do Forte de São Luiz, «que os francezes eram fortes, que habitavam um paiz grande, abundante de boas comidas, de muito vinho, de pão, de boi, de carneiro, de galinhas, de muitas especies de ovos, e de grande variedade de peixes: que suas casas eram construidas de pedras, cercadas de grossos muros, onde estava assestada grossa artilharia, batendo o mar na base da muralha, ou então sendo esta circulada de fossos cheios d’agoa.
«Pelas ruas estão lojas de todos os generos. Andam a cavallo, e os Grandes, ou melhor os Principaes são acompanhados por muitas pessoas, como o Sr. de la Ravardiere, residente perto da cidade, onde cheguei.
«O Rei de França mora no centro do seo reino, n’uma cidade chamada Pariz. Os francezes aborrecem, como nós, os Peros, e lhes fazem guerra por terra e por mar, e sempre com vantagem, porque são fracos os Peros, valentes e animosos os francezes como nenhuma outra nação, e eis a razão porque não devemos temer aquelles visto estes nos defenderem. Alguns maldizentes de nossa gente espalharam não terem os francezes podido tomar os Camarapins, porem isto é falso. Cumpriram seo dever e si os Tupinambás tivessem querido ajudar-nos, seriam agarrados, porem o chefe dos franceses condoeo-se d’elles, e não quiz que todos fossem queimados como aconteceo em parte.»