Caçam-nas tambem por outra maneira, e são as raparigas e as mulheres que, sentando-se na bocca da caverna, convidam-nas a sahir[70] por meio de uma pequena cantoria, assim traduzida pelo meo interprete.

«Vinde, minha amiga, vinde vêr a mulher formosa, ella vos dará avelans.»

Repetiam isto á medida que iam sahindo, e que iam sendo agarradas, tirando-se-lhes as azas e os pés.

Quando eram duas as mulheres, cantava uma e depois outra, e as formigas que então sahiam, eram da cantora.

Causa admiração vendo-se os grandes pedaços de terra, que tiram de suas cavernas.

No tempo das chuvas tapam os buracos do lado das enchurradas, e deixam somente aquelles, por onde pode vir a chuva raras vezes.

As formigas do Maranhão tem dois inimigos encarniçados, especialmente estas alladas: um—certa especie de cães selvagens,[71] com pello de lobo, fedorentos o mais que é possivel, focinho e lingua muito aguda, e que procura o formigueiro para alimentar-se: outro, uma qualidade de formigas corpulentas, que de ordinario nascem com as outras, como o zangão entre as abelhas, e em quanto são pequenas e fracas, trabalham conjuntamente sem fazerem barulho, e nem se offenderem.

Quando grandes e fortes deixam as outras, fazem bando á parte, só e só, não vivem mais em companhia, e põem se de embuscada pelo caminho, onde costumam passar suas irmãs e parentas, como fez antigamente Abimelech, bastardo de Gedeon, sobre os 70 filhos legitimos de seo pae, seos proprios irmãos, os quaes matou todos sobre uma pedra em Ephra.

Sirva d’isto ao leitor para applicar como julgar acertado.

Eis como os nossos selvagens se distrahem mais utilmente com estes animaes, do que os nossos rapazes com as borboletas: de tudo se aproveitam e nada perdem, reunindo o util ao agradavel.