Os lagartos, quando velhos, perdem sua cauda, que fica negra, e por isso mesmo é fragil como vidro, e quebra-se por qualquer causa.

Não creio, que ellas renasçam, embora o affirme Aristoteles.

Fundo-me no que observei n’um lagarto grande, que estava na nossa casa de S. Francisco, onde se conservou por dois annos sem cauda, vindo diariamente comer em nossa presença, com as galinhas com que se familiarisou.

Dizem, e os francezes o asseveram por experiencia, que ha uma especie de lagartos grandes que apanham os frangos, e levam-nos para o matto, onde vão comel-os.


CAPITULO XLIV

Das aranhas, cigarras e mosquitos.

A vida do homem é comparada com a da aranha em muitos lugares da Escriptura Santa, especialmente no Psal. 89. Anni nostri sicut Aranea meditabuntur «nossos annos se passaram, serão contados e meditados como os da Aranha.»

Escreveo S. Isidoro, que a aranha é um verme do elemento do ar, n’elle nutrido, d’onde se deriva a etymologia do seo nome, nunca descança, sempre trabalha, de si tira com que formar sua teia, sempre em perigo por se achar ella, seos bens, e suas riquezas, suspensas n’um fio, mercê do menor sopro de vento, ou do capricho de um criado ou de uma camareira, que com um espanador destrua todo o trabalho.

Quereis mais bello espelho para considerar as desgraças e miserias d’esta vida?