Umas estendem suas teias nas arvores, de um ramo a outro, e de um arbusto a outro para agarrarem borboletas e outros bichinhos iguaes: outras tecem as teias por cima da terra para pilharem vermes, como sejam formigas e outros iguaes.

Algumas fazem teias tão fortes, que até n’ellas cahem lagartinhas, e então descem as aranhas, matam-nas por meio de um aguilhão, que tem em si, e depois chupam-lhe os miolos e o sangue, e só quando se fartam, é que as deixam.

Vi aranhas do mar, muito parecidas com as de terra porem maiores.[73] Habitam em buracos nas praias, e alimentam-se de peixinhos.

Dizem que chupam o sangue e o humor das cobras, iguaes as que mandei cortar em pedaços, e asseveram os selvagens, que se morderem a cabeça d’algum individuo, ficará louco. No Maranhão, como em parte alguma, tem muitas cigarras,[74] que fazem em tempo proprio um barulho infernal, como eu não acreditaria si não ouvisse: ha de diversas variedades, tamanhos e cantos.

São umas grossas, tem seis pollegadas de comprimento, e voz forte e alta a ponto de ferir-vos vivamente os ouvidos. Não cantam no inverno, e sim no estio, e quando se aproximam as chuvas gritam tanto a ponto de estalarem pelos lados, como me contaram os selvagens, sendo isto causado pelo bater das azas quando si esforçam e se incham para dar mais harmonia á voz.

Estudei os usos e costumes destes animaes em alguns, que conservei entre folhas na nossa casa.

Reconheci ser seo canto devido a tres coisas.

1.ª Engolem o ar, enchem o ventre, entumecem-se bem para estenderem bem os lados, e ficarem sonoras. Ha grande accordo entre a extensão dos lados, e as azas, por meio das quaes forma-se o som, que claramente se vê tomarem ellas folego quando erguem as azas, e quando abaixam, estendem e dilatam os flancos.

2.ª As azas são mui finas e diaphanas, e por tanto proprias para formar o som por serem muito seccas.

3.ª As azas de cima sendo fortes e massiças, tocando e batendo as azas do meio contra os lados e com auxilio do ar, forma o som.