Marentin, observando a pressa de todos, alcançou como poude o canto de uma porta, trepou-se n’um banco, que ahi achou para ver á sua vontade tudo quanto eu fazia.
Apenas pisei nos degraos do altar, voltei-me afim de saudar a todos, e descobrindo este selvagem acudio ao meu espirito a esperança de salval-o.
Contou depois, como prestou attenção a todas as ceremonias, que fiz na celebração do alto e profundo mysterio da Missa, e desejou saber porque me revesti de alva branca, liguei a cintura, deitei o manipulo no braço, e a estolla no pescoço: aproximei-me á direita do altar, onde me apresentaram um vaso com agoa e sal, sobre o qual pronunciei algumas palavras fazendo muitos signaes da Cruz; levantaram-se os francezes, me respondiam cantando, e tendo eu um ramo de palma na mão o mergulhei n’agoa deitando algumas gottas no altar, depois sobre mim, e levantando-me fui aspergir os francezes começando pelos chefes e acabando pelos que estavam na porta da Igreja, chegando tambem para esse fim os selvagens não christãos, na convicção de que lhes serviria contra Jeropary, desceo elle mesmo do banco, rompeo a multidão para receber tambem algumas gottas d’agoa benta, o que conseguio.
Não gosou logo esta gotta de celeste orvalho, porque as cantharidas peçonhentas e venenosas cahiram sobre as flores de sua alma entre-abertas, porem as abelhas industriosas de inspirações divinas vieram reunir ahi o doce mel da raça christã, porque regressando ao seo lugar agachou-se atraz dos outros, dormio, e durante o seo somno vio o Ceo aberto, e para elle irem subindo muitas pessoas vestidas de branco, e atraz d’ellas muitos Tupinambás a medida, que eram por nós baptisados.
Disseram-lhe na visita que as pessoas vestidas de branco eram Caraybas, isto é, francezes ou christãos,[94] conhecedores de Deos e do baptismo desde a mais remota antiguidade, e que os selvagens, que os acompanham, eram lavados por nós, e acreditam em Deos, em nossas palavras e de nossas mãos recebiam o baptismo.
Despertando, não disse palavra, porem ficou muito pensativo e melancolico, e assim embarcou, e foi para a sua terra.
Chegando a sua casa todos o desconheceram, e lhe perguntaram o que sentia, e si havia recebido alguma desfeita dos francezes em Yviret.
Sem dar resposta alguma de dia para dia mais se entristecia, fugia da companhia de seos similhantes passeando só em suas roças e bosques, onde foi accommettido por estes espiritos loucos, cahindo depois tão gravemente doente a ponto de chegar ás portas da morte, sempre afflicto pela visão, que vira em Yviret, e pelos espiritos de que já fallei.
Finalmente ouvio uma voz interior dizendo-lhe que se quizesse livrar-se de tál afflicção e molestia, e ir com Deos para o Ceo convinha, antes de morrer, lavar-se com essa agoa, que cahio n’elle quando esteve na casa de Tupan em Yviret.
Obedecendo a esta voz, em madrugada alta, mandou um seo irmão ter comnosco, e pedir-nos por intermedio do chefe dos francezes, cuja intervenção invocou, um pouco d’agoa de Tupan, n’uma porção de algodão, guardada n’um caramémo,[95] afim de não se perder uma só gotta para lavar sua cabeça, e ir assim lavado para o Ceo.