Na verdade ninguem, mas para contentar o leitor e dar-lhe alguma ideia direi, que não havia um só dia, em que não recebesse novos visitadores e as vezes chegavam a 100 e a 120: eis a razão porque não podia deixar facilmente o Forte, e ir ás aldeias á meo cargo ministrar o pasto espiritual.
Muitos d’estes selvagens de diversas idades se me apresentaram pedindo o baptismo, o que eu difficultava, e somente concedia aos que julgava, por algum acto extraordinario, enviados por Deos para tal fim.
A razão porque apresentavamos essas difficuldades ja o disse, por vir da incertesa do soccorro, e do temor em que estavamos de baptisar todos os que nos pediam, e depois deixal-os sem coadjutores, pelo que poderiam cahir em peior estado do que se achavam anteriormente.
Não deixavamos comtudo de trazel-os esperançados, e aproveitavamos a occasião de instruil-os no conhecimento e amor do Omnipotente até á vinda dos novos padres, que os acharam promptos para satisfazer suas vontades.
Entre os que foram inspirados vivamente pelo Espirito Santo, e que por isso baptisamos havia um indio de Tapuitapera, principal n’uma aldeia antiga d’esta provincia, chamada Marentin, sempre grande amigo dos francezes, de boa indole, modesto, de poucas fallas, olhos sempre voltados para terra, tido outr’ora entre os seos por afamado barbeiro ou feiticeiro, tendo n’elle muita fé os doentes.
Contou-me elle e depois muitos outros, que era christão, e quando exercia a sua arte de barbeiro era visitado por muitos espiritos folgazões, que brincavam diante d’elle, quando embrenhava-se nos mattos, tomando diversas cores, sem lhes fazer mal algum antes até tornando-se seos intimos: achavam-se porem na duvida si eram espiritos bons ou maos: tal era a sua crença n’estes espiritos bons ou maos.
Conforme o costume tinha tres mulheres, antes de ser christão.
Aconteceo porem, que inexperadamente viesse com muitos selvagens, seos similhantes, de Tapuitapera para vêr não só a nós como tambem as ceremonias, com que serviamos a Tupan.
Achando-se no Forte de S. Luiz, vio na manhã do dia seguinte (que era domingo) os francezes vestidos com suas boas roupas, acompanhando seos chefes em caminho para a nossa casa de S. Francisco afim de ouvirem missa. Após estes iam os selvagens, o que o animou a seguir o prestito, especialmente pelo desejo e intenção, que tinham, ha muitos annos de aproximar-se de nós.
A Capella de Sam Francisco encheo-se logo de francezes, de selvagens christãos, e não christãos, que tinham todos especial devoção de receber em si algumas gottas de agoa benta.