Pensavam os selvagens que nós outros padres eram pessoas misericordiosas e compassivas, que expontaneamente empregavamos nossos esforços perante os grandes para alcançar a vida dos condemnados: que os grandes nos estimavam, e nada nos negavam, e que, alem d’isto, nós prégavamos, que Deos não queria a morte e sim a vida do peccador, e que por isso tinhamos vindo aqui para dar essa vida de forma que, si eu o baptisasse publicamente, antes d’elle morrer, teria satisfeito muitos caprichos d’estes espiritos debeis e incapazes a respeito da opinião, que formavam de nós e que seria muito prejudicial a nossas intenções dando alem d’isso causa a varias murmurações dos selvagens, que diziam—«si os padres gostam da vida, porque deixam este christão ir morrer? Si amam tanto os christãos porque não amam este? Si os grandes nada lhes negam, porque não pedem a vida d’este?»

Por tudo isto, e por outras razões, que omitto, decidimos ser conveniente e necessario, que eu não o baptisasse. Roguei pois ao dito senhor que, depois de instruil-o pelos interpretes, o baptisasse antes de ir ao supplicio, sem as ceremonias da igreja o que se prestou e cumprio.

Recebeo, com tranquilidade e sem tristeza, na presença dos principaes selvagens o baptismo, depois do que um dos Principaes, chamado Karuatapiran «Cardo vermelho,» de quem ainda fallarei, lhe disse estas palavras:

«Tens agora occasião de estares consolado e de não te affligires, pois presentemente és filho de Deos pelo baptismo, que recebeste da mão de Tatu-uaçu (nome do Sr. de Pezieux em sua lingua) com permissão dos Padres. Morres por teos crimes, approvamos tua morte, e eu mesmo quero pôr o fogo na peça para que saibam e vejam os francezes, que detestamos tuas maldades; mas repara na bondade de Deos e dos Padres para comtigo, expellindo Jeropary para longe de ti por meio do baptismo de maneira que apenas tua alma sahir do corpo vae direita para o Ceo vêr Tupan e viver com os Caraibas, que o cercam: quando Tupan mandar alguem tomar teo corpo, si quizeres ter no Ceo os cabellos compridos e o corpo de mulher antes do que o de um homem, pede a Tupan, que te dê o corpo de mulher e resuscitarás mulher, e lá no Ceo ficarás ao lado das mulheres e não dos homens.»

Desculpareis este pobre selvagem, não christão e nem cathecumeno, fallando da Resurreição. Elle nos ouvio ensinar que n’um dia resuscitariam todos os homens, regressando cada alma do lugar em que estava para occupar o seo corpo, acrescentando o que pensou ser indifferente á Resurreição, isto é, que uma alma recebe um corpo de homem ou de mulher, no que se enganou não se deixando em pé tal ideia falsa, pois elle e o paciente foram instruidos da verdade: julguei acertado referir aqui simplesmente o que se passou para que o leitor reconheça sempre quanto sou fiel em minhas descripções, como ja disse, e provarei sempre nos discursos, que ainda hei de transcrever.

Este infeliz condemnado recebeo as consolações de muito boa vontade, e antes de caminhar para o supplicio disse aos que o acompanhavam: «vou morrer, não mais os verei, não tenho mais medo de Jeropary pois sou filho de Deos, não tenho que prover-me de fogo, de farinha, de agoa, e nem de ferramenta alguma para viajar alem das montanhas, onde cuidaes que estão dançando vossos paes. Dae-me porem um pouco de Petum para que eu morra alegremente, com voz e sem medo.»

Deram-lhe o que elle pedio, á similhança dos que vão ser justiçados, aos quaes tambem se dá pão e vinho, costume não d’agora, e sim desde a mais remota antiguidade, pois então se offerecia aos criminosos vinho com myrrha e opio para provocar o somno dos pacientes.

Feito isto, levaram-no para junto da peça montada na muralha do Forte de S. Luiz, junto ao mar, amarraram-no pela cintura á bocca da peça, e o Cardo vermelho lançou fogo á escorva, em presença de todos os Principaes, dos selvagens e dos francezes, e immediatamente a bala dividio o corpo em duas porções, cahindo uma ao pé da muralha, e outra no mar, onde nunca mais foi encontrada.

Quanto a sua alma, é de crer que os anjos a levassem ao Ceo, pois morreo logo depois de haver recebido as agoas do baptismo, certesa infallivel da salvação d’aquelles, a quem Deos concedeo tal graça, não pequena e nem commum, porem tão rara como o arrependimento do bom ladrão na Cruz, que tendo vivido sempre desregradamente até chegar áquelle logar, recebeo comtudo esta promessa de Jesus Christo—Hodie mecum eris in Paradiso, «hoje estarás commigo no Paraiso»: outro tanto podemos dizer d’esse infeliz e desgraçado indio, que nos deo tão bella occasião d’admirar e de adorar os juizos de Deos.