Karuatapiran, o algoz, com gestos e palavras mostrava grande contentamento e alegria perante os francezes por haver recebido tal honra, que apreciava muito mais do que as que sua Nação cheia de abusos dá aos que publicamente matam os prisioneiros, sendo essas consideradas as maiores existentes entre elles, e um favor não pequeno aos mancebos, quando escolhidos para tal fim, pois é uma especie de accesso de grandeza para ser um dia Principal.

Por tudo isto o grande Karuatapiran exaltava-se d’este seo feito e d’elle se servia para se fazer timido dizendo por todas as aldeias por onde andava, o que tinha feito, asseverando ser irmão dos francezes, seo defensor e exterminador dos maus e dos rebeldes.


CAPITULO VI

Formulario dos discursos, que faziamos aos selvagens, quando nos vinham vêr, para chamal-os ao conhecimento de Deos e á obediencia de nosso Rei.

O meio pelo qual outr’ora os Athenienses chamavam os povos ao conhecimento da Philosophia, e á obediencia de uma Republica, era representado pelo simulacro do seo Palladium, que fingiam ser trazido do Ceo, e por elles collocado no lugar mais alto de sua cidade.

Tal era o idolo de Pallas, armado dos pés até a cabeça, correndo de sua bocca raios de mel, que cahiam sobre seos ouvintes e expectadores, produzindo-lhes doce somno.

Ensinaram os Druidas a mesma coisa aos Gaulezes levantando a estatua de Hercules no frontespicio de seos Templos, tendo na sua cabeça a cabeça de um leão, e nas espaduas a clava de suas victorias, sahindo de sua bocca uma especie de hera, porem de oiro, que prendia pelas orelhas homens e mulheres, moços e velhos afim de attrahil-os a si.

Com isto queriam os Athenienses e os Gaulezes dizer, que os homens são attrahidos pela doçura e pela razão á obediencia das leis divinas e humanas, na qual se conservam por meio das armas, sustentadas pelos soberanos para a conservação dos seos vassallos.

O primeiro d’estes dois fins nos pertencia desde que Sua Magestade e os nossos Padres nos remetteram para cá á fim de chamarmos ao conhecimento de Deos estas pobres almas selvagens, que, antes de começarmos a cathequisal-as, reconhecemol-as anciosas por doçura, e por isso combinamos pautar por ella nossas palavras e acções, com que sempre nos démos muito bem.