È costume dos Pagys-uaçus celebrarem, em certa epoca do anno, lustrações publicas,[103] isto é, purificações supersticiosas por aspersão d’agoa sobre os selvagens, e bem que tudo dependa de sua imaginação, fazendo á capricho taes oblações, comtudo de ordinario enchem d’agoa grandes potes de barro, proferindo em segredo algumas palavras sobre elles, deitando tambem fumaças de Petum, e misturando tambem um pouco de pó da casa, em que se acham, punham-se a dançar, e depois o feiticeiro toma um ramo de palha, mete dentro do pote, e com elle asperge a companhia.

Feito isto, toma cada um a porção d’agua que quer nas cuias, ou tigellas de madeira, e com ella lavam a si e a seos filhos.

Pacamão, grande feiticeiro de Commã,[104] contou-me um dia, que faria sahir agoa da terra, com que lavava estas gentes, com grande admiração de todos os barbaros, que viam sahir tão fresquinha essa agua do meio de sua casa, e a tomavam como si fosse milagrosamente enviada pelos espiritos, mas o astucioso tinha enchido d’agoa um grande vaso e mettendo-o em terra d’elle fazia sahir agoa por meio de tubos ou canaes, ou tabocas, que em abundancia se encontram nas mattas do Brasil, e d’esta forma illudia os seos.

Aos gentios tinha o diabo communicado muitas ideias erroneas á respeito das agoas, das fontes, e dos regatos. N’umas habitavam Nymphas, e n’outras deosas: estas faziam uma coisa, e aquellas—outras; umas eram perigosas e enganadoras, outras agradaveis e sinceras; umas sagradas, e outras profanas.

Quando os selvagens vêem certa especie de lagartos, parecidos com os venenosos de diversas cores, correr para agoa, pensam supersticiosamente, que essa fonte é prejudicial ás mulheres, e que d’ella bebe Jeropary.

Sabendo desta superstição para livrar-me do encommodo que me davam as mulheres vindo lavar-se na fonte do nosso logar de Sam Francisco, fiz correr o boato, que lá haviam sardões, e depois d’isto nenhuma mais se animou a ir ahi excepto as escravas do Forte, que não tinham licença de lavar-se na fonte, e d’est’arte tive o prazer de mandar amural-a e fechar á chave, afim de conservar a agoa sempre limpa.

Chega esta superstição a ponto de acreditarem, que estes lagartos atiram-se ás mulheres, adormecem-nas, e gozam-nas, ficando grávidas, e parindo lagartos em vez de crianças.

Eis porque, quando mandei espalhar tal boato, vinham as escravas do Forte em bandos, armadas de cacetes, de facas, e de outros instrumentos iguaes para se defenderem, diziam ellas, d’estes lagartos, o que motivaram muito riso a nós outros, os francezes.

Alem das agoas de lustrações, e diabolicas abluções praticadas por estes feiticeiros tem uma maneira particular de communicar seo espirito aos outros, isto é, por meio da herva Petun introdusida n’um caniço, de que elles pucham a fumaça, lançando-a sobre os circunstantes ou soprando-a mesmo na canna, exhortando-os a receber seo espirito e sua virtude.

Parece que este cautelloso dragão quer com tal ceremonia falsa imitar Jesus Christo quando deo seo espirito aos Apostolos, e o seo poder aos seos successores para transmitil-o aos iniciados nas ordens sagradas. Assim se lê em São João—Insufflavit et dixit eis, accipite Spiritum Sanctum: «soprou sobre elles, e lhes disse—Recebei o Espirito Santo.»