D’onde estes feiticeiros tirariam esta ceremonia satanica, si o diabo não lh’as tivesse mostrado? Achando-se sempre fechados n’esta grande e vasta região do Brasil, sem communicação alguma com o velho mundo, não podiam aprendel-a de outra nação.
Estes bafejos lhes são muito particulares, como ceremonia necessaria para curar os infermos, porque vós os vedes puchar pela bocca, como podem, o mal, dizem elles, do paciente, fazendo-o passar para a bocca e garganta d’elle, inchando muito as bochechas, e deixando d’ellas sahir de um só jacto o vento ahi contido, causando estampido igual ao de um tiro de pistola, e escarrando com grande força dizendo ser o mal, que haviam chupado, e fazendo acreditar ao doente.
Á este respeito o Sr. de Pezieux e eu passamos um dia alegre na aldeia de Vsaap.
Um pobre moço selvagem estava atacado pela colica do paiz.
Veio um d’estes feiticeiros exercer sua attração de espirito sobre o seo ventre, fazendo muitos tregeitos, e retrahindo-se por diversas vezes vendo-nos prestar-lhe muita attenção, e apesar de tudo isto o doente continuava a gritar. Veio o feiticeiro depois procurar-nos e mostrando-nos dois outros pregos nos disse—«eis o que lhe tirei do ventre, cujos intestinos estão cheios d’isto, é preciso tiral-os um por um. Si eu não os tirasse todos, lhe cravariam as tripas e a garganta.»
Imbuio a este moço, sempre gritando, que lhe tinha tirado do ventre esses pregos.
Si essas casas fossem cobertas de ardosias, penso que meteria na cabeça d’esse rapaz ter elle comido as ripas e os pregos; mas não sendo communs entre elles pregos de ferro, não sei como poude illudir os assistentes com tal loucura.
Poderia referir muitos outros exemplos, porem bastam-me estes ao meo fim.
Ora si é coisa digna de admiração vêr o Espirito Infernal em tudo quanto acabamos de dizer até aqui, muito maior deve ser o nosso espanto pelo que vou dizer, isto é, pela existencia da confissão auricular entre os selvagens.
Nada digo que não ouvisse da bocca de Pacamão, de outros selvagens e dos franceses.