Os que em França somente usavam de comidas delicadas, n’aquelle paiz apenas achavam legumes bem agradaveis.
Conto isto para louvar a paciencia dos francezes em serviço do seo Rei, para destruir essa macula, que ordinariamente lhes lanção, de impacientes, imprudentes e desobedientes, porque na verdade eu só vi o contrario.
Os que desejarem muito ir para aquelle paiz, não se admirem de ouvir fallar em tanta pobresa, porque não soffrerão mais do que nós, visto a terra ir melhorando diariamente, e os viveres se augmentarem gradualmente.
Para remediar esta falta, resolveo-se mandar pescar peixe-boi[5], á 30 ou 40 legoas distante da ilha: estes peixes tem a testa como os bois, porem sem cornos, duas patas adiante debaixo das mamas, párem filhos como as vaccas, nutrem-nos com seo leite, mas a cria tem a propriedade notavel de abraçar a mãe pelas costas com suas patinhas, e nunca as deixa embora mortas, pelo que alguns são agarrados vivos, e assim trazidos para a Ilha: são muito delicados.
Sirva isto d’instrucção aos meninos, cumprindo a Lei de Deos, que manda honrar Pae e Mãe, isto é, amar e respeitar, e de advertencia aos catholicos para ficarem firmes e unidos no seio da Igreja, sua Mãe, d’onde perseguição alguma as possa arrancar, amando todos os bons francezes, seo Rei e sua Patria.
São apanhados estes peixes-bois nos pastos, ou nas hervas que crescem nas praias.
Vão os selvagens remando mansamente suas canôas por detraz d’ellas, atiram-lhe duas ou tres setas, e apenas mortas são puxadas para terra, retalhadas e salgadas.
Coisa igual acontece aos glutões, que no meio dos banquetes são surprehendidos e n’um instante lá vão para o inferno.
Encontra-se o sal necessario ás commodidades da vida, na distancia de 40 legoas da Ilha, em terrenos arenosos, onde se mostra naturalmente, em forma de gelo, duro e luzente como cristal, por occasião do fluxo e refluxo do mar, e quando este se retira o sol o cresta e é melhor que o sal de França e de Hespanha.