Enfadado o marido com a grande demora da mulher, e desconfiando de alguma cousa por ser bonita e agradavel, foi á fonte, onde encontrou junto a borda o pote de sua mulher cheio d’agoa, e lançando a vista ao redor, como costumam a praticar os homens ciumentos, vio sahir sua mulher de um lado do bosque e o escravo de outro. Agarrou o escravo pelo colleirinho, e confiou-o à guarda dos seos amigos, e levou sua mulher para casa de seos paes, que se comprometteram a entregal-a quando pedisse.

Na manhã seguinte, em companhia dos seos, levou este escravo á minha casa, expondo-me o facto como acima referi, acrescentando que si não fosse o respeito ás recommendações dos Padres e dos Francezes, elle teria matado o escravo, perdoando comtudo a sua mulher visto ter sido forçada, a qual ja havia entregado a seos parentes com intenção de repudial-a.

Louvei a sua obediencia e respeito: era na verdade um homem bem feito, de bonito rosto, e bom corpo, fallando bem e em bons termos, mostrando tanto nas maneiras como no corpo, generosidade e nobresa de coragem.

Mandei-o á presença do senhor de Pezieux, loco-tenente de Sua Magestade na ausencia do Sr. de la Ravardiere, que tendo ouvido a queixa, mandou carregar de ferros os pés do escravo, promettendo ao Principal fazer a justiça, que elle quizesse.

Replicou-lhe o Principal que desejava vel-o morto como era costume: respondeo o senhor de Pezieux, que Deos tinha ordenado em sua lei, que deviam morrer tanto o homem como a mulher adultera.

Sim, disse o Principal, porem ella foi constrangida.

«Não, respondeo o senhor de Pezieux, a mulher não pode ser forçada por um só homem, ou pelo menos deve gritar, e não pedir segredo ao selvagem, o que é tacito consentimento:» dizia tudo isto para salvar o escravo da morte, por que muito bem sabia não concordar o Principal na morte de sua mulher visto os muitos parentes que ella tinha.

Conseguio-o logo, porque elle pedio ao Sr. de Pezieux, que não matasse o escravo, mas sim que o prendesse na golilha, e que lhe fosse permittido açoital-o á vontade.

«Sim, disse-lhe o Sr. de Pezieux, com tanto que dês quatro açoites com cordas em tua mulher, diante de todas as mulheres, que se acharem no Forte, e ao som da corneta.»

Acordes n’isto, na manhã seguinte, foi a mulher conduzida e confrontada com o escravo, reconheceo-se que o facto deo-se como ja referi, foram ambos conduzidos á praça publica do Forte, onde se fincou o esteio e a golilha: ahi o marido representou o papel de verdugo, escolheo tres ou quatro cordas bem duras, que enrolou em seo braço, e voltou em sua mão direita, e com ellas açoitou sua mulher por quatro vezes, deixando-lhes vergões bem grossos e cumpridos, impressos sobre seos rins, ventre e costas, não sem derramar muitas lagrimas, que lhe corriam ao longo das faces, e sem exhalar profundos suspiros: sua mulher tambem gemia, com a vista baixa, envergonhada de assim se vêr rodeiada por tantas mulheres, que, como ella, tambem choravam tanto por compaixão, como apprehensivas de que para o futuro não lhes acontecesse o mesmo.