Não devem passar atravez da parede das casas, somente feita de pindoba, ou de ramos de palmeira, ao contrario são criminosos de morte, porque devem passar pela porta, commum, ou atravez da parede de palmas.
Não devem fugir, porque quando são agarrados, está tudo perdido, visto que são comidos: n’este caso já não pertencem ao senhor, e sim a todos, e para este fim quando se prende um escravo fugido, sahem da aldeia as velhas, vão ao seu encontro, e gritando dizem «é nosso, entregae-nos, queremos comel-o», e batendo com a mão na bocca, gritam uns para os outros com certa expressão «nós o comeremos, nós o comeremos, é nosso.»
Vou dar-lhes um exemplo:
Um guerreiro Principal da ilha do Maranhão, chamado Ybuira Pointan,[33] quer dizer, Pau brasil, ao regressar da guerra trouxe comsigo alguns escravos, dos quaes um procurou salvar-se pela fuga, porem sendo agarrado, foram as velhas ao seu encontro batendo na bocca com as mãos, e dizendo «é nosso, entregae-o, é necessario que seja comido».
Houve muita difficuldade em salval-o apezar da prohibição de não se comerem os escravos, e si não se empregassem ameaças, elle seria devorado pelas velhas.
Si acontece morrerem de molestias estes escravos, sendo assim privados do leito de honra, isto é, de serem mortos e comidos publicamente, um pouco antes do seo fallecimento levam-nos para o matto, lá partem-lhe a cabeça, espalham o cerebro, e deixam o corpo insepulto e entregue a certas aves grandes, similhantes aos nossos corvos, que comem os enforcados e os rodados.
Quando são achados mortos em seos leitos, atiram-nos em terra, arrastam-nos pelos pés até o matto, onde lhes racham a cabeça, como acima disse, o que ja não se pratica na Ilha e nem em suas circumvisinhanças, senão raras vezes e occultamente.
Gozam tambem de muitos privilegios, que os levam a residir voluntariamente entre os Tupinambás, sem desejar fugir, considerando seos senhores e senhoras como paes e mães, pela docilidade com que os tratam cumprindo assim seo dever; não ralham com elles e nem os offendem, não os espancam, desculpam-nos em muita coisa contanto que não offenda os seos costumes: são muito compadecidos, e chegam a chorar quando os francezes tratam os seos com aspereza, e si outros se lastimam do procedimento dos francezes prestam-lhe todo o credito ao que dizem.
Quando fogem dos francezes elles os occultam, levam-lhes o sustento nos mattos, vão vesital-os, as raparigas vão dormir com elles, contam-lhes o que se passa, aconselham-nos sobre o que devem fazer, e de tal sorte que é muito difficil agarral-os, embora vão atraz d’elles uns vinte homens, e isto não fazem para com os escravos dos seos similhantes.