São Bernardo, no Tractado da vida solitaria, disse—virtus vis est quædam ex natura, «a virtude é uma certa força, que sahe da natureza.»
Se assim não fôr, quero provar por muitos exemplos, começando pelas sciencias, para cujo ensino concorrem as tres faculdades da alma—vontade, intelligencia, e memoria: a vontade dá ao homem o desejo de aprender, e por ella vencemos toda a sorte de trabalhos e difficuldades: a intelligencia dá vivacidade para comprehender, e a memoria guarda e conserva o que conheceo e aprendeo.
São mui curiosos os selvagens de saber novidades e para satisfazer tal desejo, os caminhos e a distancia das terras, por maiores, que sejam, lhes parecem curtos, não sentem a fome, porque passam, e os trabalhos como que são descanço para elles: prestam-vos toda a sua attenção, escutam o que disserdes durante o tempo que vos parecer, sem enfado e em silencio, á respeito de Deos, ou de qualquer assumpto, e se tiverdes paciencia, elles vos farão milhares de perguntas.
Lembra-me, que entre as praticas, que eu lhes fazia ordinariamente por intermedio do meo interprete, eu lhes disse que apenas chegassem de França os Padres, elles mandariam edificar casas de pedra ou de madeira, onde seriam recolhidos seos filhos, aos quaes os Padres ensinariam tudo o que sabem os Caraibas.
Responderam-me: oh! quanto são felizes nossos filhos por aprenderem tão bellas coisas, oh! quanto fomos infelizes nós e os nossos antepassados por não haverem Principaes n’esse tempo.
É viva sua intelligencia como reconhecereis pelo seguinte facto.
Não ha estrellas no Ceo, que elles não conheçam e calculam pouco mais ou menos a vinda das chuvas e as outras estações do anno.
Pela phisionomia distinguem um Francez de um Portuguez, um Tapuyo de um Tupinambá, e assim por diante.
Nada fazem antes de pensar, e pezam em seu juiso uma coisa antes de emittir sua opinião. Ficam serios e pensativos, porem não se precipitam em fallar.
Mas, dizeis vós, como é possivel que estas pessoas tenham tal juiso fazendo o que fazem?