Porque elles dão por uma faca cem escudos de ambar gris, ou qualquer outra coisa, que apreciamos, como sejam: ouro, prata e pedras preciosas.

Eu vos direi a opinião que elles fazem de nós, muito contraria n’este ponto: julgam-nos loucos e pouco judiciosos em apreciar mais as coisas, que não servem para o sustento da vida do que aquellas, que nos proporcionam o viver commodamente.

Na verdade, quem deixará de confessar, ser uma faca mais necessaria á vida do homem, do que um diamante de cem mil escudos, comparando um objecto com outro, e pondo de parte, a estima que se lhe dá?

Para provar que não lhes falta juiso afim de avaliar a estima que fazem os Francezes das coisas existentes em sua terra, basta dizer, que elles sabem altear muito o preço das coisas, que julgam ser apreciadas pelos francezes.

Um dia disseram-me alguns, que era preciso haver muita falta de madeira em França, e que experimentassemos muito frio para mandarmos navios de tão longe, a mercê de tantos perigos, carregarem de paus.[36]

Respondi-lhes que não era para queimar e sim para tingir de cores.

Replicaram-me: porque nos compraes o que cresce em nosso paiz a troco de vestidos vermelhos, amarellos e verde-gaios? Eu os satisfiz dizendo ser necessario misturar outras cores com as do seo paiz para tingir panos.

Si me disserdes, que elles fazem acções inteiramente brutaes, como as de comer seos inimigos, e praticar tudo que os offenda, como seja expol-os em lugares onde ha piolhos, vermes, espinhos, etc., eu vos responderei não provir isto de falta de juiso, porem sim de um erro hereditario, sempre existente entre elles, por pensarem, que sua honra depende de vingança: parece-me, que tambem não é desculpavel o erro dos nossos francezes de se matarem em duello, e comtudo vemos os mais bellos espiritos, e os primeiros da nobreza concordarem com este erro, despresando a Lei de Deos, e arriscando a eternidade de sua salvação.

Quanto a memoria elles a possuem muito feliz, porque lembram-se sempre do que viram e ouviram com todas as circumstancias do lugar, do tempo, das pessoas, quando o caso se disse ou se executou, fazendo uma geographia ou descripção natural com a ponta de seos dedos na areia, do que estão contando.