34. Tambem outra casuàlidade me fez, em hum dia de vento fresco, encontrar com o Prisma, huma destas bandeiras, que em la se costumaõ pendurar nas ruas, para indicar festas mais solemnes. O vento a movia em todas as direcçoens; e muitas vezes a tinha suspensa horizontalmente. Vendo-a pelo Prisma nesta situaçaõ, parecia huma larga fita, ametade vermelha, e a outra ametade verde, e quando ondeava irregularmente, entaõ se via nascer destas duas Cores muitas outras que desapareciaõ todas, quando a bandeira tornava á situaçaõ horizontal: e neste caso se recolhia ás duas, de que se tinhaõ formado.

35. Se, em hum quarto de papel branco, colamos hum circulo de seda negra, de tafetá, por exemplo, e se, em hum pedaço de tafetá, desta mesma Cor, colamos hum circulo de papel branco, da mesma grandeza do primeiro; e pomos estas duas figuras, de sorte que os dous circulos fiquem em justa posiçaõ, hum ao lado do outro, e como comprehendidos entre duas parallelas: observando-os, pelo Prisma acromatico, os vemos coloridos com as mesmas Cores; mas em huma ordem diametralmente opposta. O circulo branco mostra, na sua peripheria superior, as Cores vermelha, e amarella; e na inferior hum Verde claro, pouco Azul, e hum quasi imperceptivel reflexo de Purpura. O circulo negro, porem, mostrando estas mesmas Cores, as faz ver em huma ordem toda opposta, isto he, o Vermelho, e Amarello na peripheria inferior; e as outras Cores, na superior.

36. Todas as experiencias feitas com o Prisma, sobre hum rayo de Luz do Sol, introdusido em huma camera escura, se redusem ás experiencias ([n. 24.] [25.] [26.] [27.]), isto he, a observar hum Ponto lucido, em hum ambiente escuro. Este rayo de Luz, se se recebe em hum cartaõ branco, forma neste hum circulo mui claro, rodeado de hum ambiente escuro, correspondendo justamente a obscuridade da camera à o azul escuro dos Ceos, nas observaçoens das Estrellas, e dos Planetas ([n. 24.] [25.]). Se observamos, pelo Prisma acromatico, este circulo de Luz, o vemos colorido da mesma sorte, e com as mesmas Cores, que elle se pinta no cartaõ, quando tem passado à o traves do Prisma; de sorte que tanto vale observar, pelo Prisma, o rayo de Luz, que sobre o cartaõ he branco, como ver sobre o cartaõ o rayo de Luz colorido, depois de ter passado pelo Prisma.

37. No que respeita á figura oblonga, formada da incidencia de muitos circulos, na qual se pretendem achar as sete Cores chamadas primitivas, deve reflectir-se, que esta figura naõ he que huma pura illusaõ. Ella se compoem indubitavelmente, de muitos circulos coloridos com as cinco Cores, que resultaõ da experiencia ([n. 26.] [27.]), os quaes circulos cahindo huns sobre os outros, mixturaõ aquellas cinco Cores, e formaõ quantidade de outras compostas, entre as quaes se pertendem destinguir aquellas, que se chamaõ primitivas.

38. Tanto he isto assim, que, se applicamos ao tubo, que intreduz o rayo do Sol, huma lamina subtil, de qualquer materia opaca, na qual se tenhaõ feito cinco, ou seis pequeninos buracos, que naõ distem huns dos outros mais de oito pontos, ou huma linha; e fazemos passar estes rayosinhos de Luz pelo Prisma acromatico: entaõ vemos, à huma proporcionada distancia, sobre o cartaõ, outras tantas figuras coloridas, da mesma sorte, e na mesma ordem, que se ve hum so rayo mayor de Luz do Sol ([n. 36.]). Mas se affastamos, pouco a pouco, o cartaõ, aquellas figuras se avisinhaõ, cadavez mais, humas das outras; atheque, finalmente, se mixturaõ, formando huma figura oblonga, comprehendida entre duas parallelas, e circular nas duas extremidades; aqual figura he absolutamente similhante, á que forma hum rayo mais forte de Luz do Sol, quando se recebe obliquamente na face de hum Prisma. Ora as Cores que resultaõ da mixtura dos, cinco ou sete pequenos rayos de Luz, saõ indubitavelmente compostas: logo as que se vem na figura oblonga, que resulta de hum so rayo de Luz, a qual tamben he composta de circulos coloridos, mixturados huns com os outros, saõ da mesma natureza, e consequentemente naõ se podem chamar primitivas.

39. Se observamos, com o Prisma amarello, todas as experiencias, que na camera escura, se fazem com os rayos do Sol, naõ vemos senaõ a Cor vermelha, e verde: e se fazemos as mesmas experiencias com este Prisma, todas as figuras conservaõ as mesmas formas, que lhes dá o Prisma acromatico; mas naõ mostraõ senaõ as Cores vermelha, e verde.

40. Se em huma camera, em que naõ entre Luz alguma erratica, se faz entrar hum subtilissimo rayo da Luz do Sol, e tendo passado pelo Prisma, o recebemos em hum cartaõ branco, bem perto do tubo por onde entra, entaõ naõ vemos, que hum circulo luminosissimo, sem Cor alguma. Se affastamos mais o cartaõ, vemos este circulo menos luminoso, mas colorido. E se finalmente pomos o cartaõ em grande distancia, vemos hum circulo obscuro sem Cor alguma.

41. Fora da camara obscura, succedem os mesmos phenomenos. Se observamos o Sol, pelo Prisma, naõ vemos que hum circulo de Luz muito clara, sem Cor alguma. Se observamos da mesma sorte huma Estrella da primeira grandeza, ou hum Planeta, vemos huma figura colorida. Se finalmente olhamos pello Prisma para huma Estrella da segunda, ou terceira grandeza, naõ vemos que hum circulo obscuro, sem Cor alguma. Athequi as experiencias do Prisma.

Principios, que resultaõ das experiencias Prismaticas.

42. Todos os conhecimentos physicos se versaõ, ou sobre factos particulares, ou sobre leys geraes. O conhecimento dos factos, precede sempre o das leys, as quaes saõ meros resultados das observaçoens, do que ordinariamente acontece, em hum grande numero de casos particulares; e que depois servem de norma, para decidir outros casos da mesma natureza. Assim, das observaçoens feitas sobre o movimento projectil dos Corpos, em linha direita, e do universal poder da attracçaõ, que os tira desta linha, se formaraõ as leys, que applicadas a os Planetas, fizeraõ conhecer o seu curvilineo movimento. Quando as leys geraes servem, para explicar casos particulares, chamaõ-se entaõ Principios.