Phenomenos das Cores, explicados pelos Principios, que resultaõ das experiencias do Prisma.

66. Se as leys geraes, quando servem para explicar casos particulares, se chamaõ Principios ([n. 42.]); a explanaçaõ, ou injuncçaõ, destes Principios, he chamada theoria, ou systema; e os factos que se devem explicar com elles chamaõ-se phenomenos. Assim os Treze Principios que presenta este Tratado ([§. 20.] [21.] [24.] [28.] [30.] [37.] [40.] [43.] [48.] [n. 44.] [46.] [48.] [49.]) formaõ huma theoria, ou systema de doutrina, com a qual se podem explicar todos os phenomenos das Cores.

67. Estes phenomenos saõ de duas sortes, porque ou se manifestaõ na Luz colorida, ou nas superficies dos Corpos naturaes. Eu vou explicar hum phenomeno de cadahuma destas especies, que servirá de norma para a intelligencia de todos os outros.

68. Dos phenomenos da Luz colorida, o mais bello e magestoso, he sem duvida, o Arco Celeste, que nos tempos mais antigos fez a admiraçaõ dos homens, e tem sido cantado, com o nome de Iris, pelos mais famosos Poetas. Este phenomeno, comtudo naõ he outra cousa, que hum grande, mas identico resultado, á o da experiencia ([n. 40.]) feita, com huma Luz mediana, em huma camara obscura.

69. O sol, na vasta camara do Universo, tem lugar do rayo da sua Luz, em huma pequena camara. As gotas de agoa, de huma nuvem desfeita, ou de huma nevoa pouco densa, saõ o grande Prisma, em que se refracte, e modifica, a Luz do Sol. E a parte do Ceo coberta de nuvens, que fica opposta ao Sol, he o immenso cartaõ, onde se mostraõ as Cores; que saõ mais distinctas, ou mais confuzas, e mais ou menos em numero, segundo a obliquidade da Luz do Sol, sobre o grande Prisma por onde passa: da mesma sorte que na camara obscura, recebendo o rayo da Luz do Sol perpendicularmente sobre a face do Prisma, naõ forma no cartaõ, que quatro ou cinco Cores; e recebendo-o obliquamente, forma muitas mais.

70. Quanto á curvatura do Arco, ella procede, de que passando a Lux do Sol por hum grande angulo, qual he o das gotas de agoa, que formaõ o Prisma Celeste, se produz aquela curva da mesma sorte, que o angulo de hum Prisma de 90 gráos, reduz á curvas todas as linhas direitas ([n. 22.]).

71. Os phenomenos das Cores, que nos presentaõ as superficies dos corpos naturaes, se explicaõ da mesma sorte. Todos os Corpos saõ compostos de partes taõ subtis, como fica provado ([n. 10.] [11.] [12.] [13.] [14.]). E como naõ ha Corpo, por mais compacto que seja, que reduzido a minutissimas partes, se naõ faça diaphano; segue-se que, a respeito da Luz, que he muito mais subtil, que as minutissimas partes, de que os Corpos se compoem, se devem reputar diaphanas, e transparentes as suas superficies. Ora, como a Luz, no reflectir-se dos Corpos, tem ja passado por este meyo mais denso, e menos diaphano, que o ar; segue-se que deve ter sofrido huma, ou mais refracçoens ([n. 7.]) e que deve necessariamente, fazer-nos ver colorida a imagem dos objectos ([44.] [45.]).

72. Naõ paressa extraordinario, que as superficies dos Corpos, e ainda dos mais densos, sirvaõ de Prisma à os rayos da Luz, para se formarem as Cores. Todos os Corpos naturaes saõ compostos de dous simplez elementos, que saõ a materia vitrea, e calcarea, combinadas de mil modos differentes ([§. 3.]). Se a todos os Corpos se faz soffrer a analysis do fogo mais intenso, elles se reduzem outra vez a estas duas elementares sustancias, e a huma grande quantidade de vapor, que exhalaõ no tempo da operaçaõ. Ora, a materia vitrea, e calcarea saõ indisputavelmente transparentes, ainda a os nossos olhos, quando estaõ reduzidas a partes de huma certa grandeza: com muita mayor razaõ o devem ser sempre, a respeito das subtilissimas partes, de que a Luz se compoem.

73. Daqui se ve claramente, que a Cor Vermelha do Rubim, se forma pela concorrencia das mesmas circunstancias, que fazem parecer vermelha ametade de huma Estrella ([n. 24.]), ametade das velas de huma embarcaçaõ ([n. 32.]), ou ametade da peripheria dos circulos ([n. 35.]); e que o Verde da Esmeralda, se forma pela concorrencia das circumstancias, que fazem apparecer verde a outra ametade daqueles objectos: e assim a respeito de todas as mais Cores. Mas qual he o intrinseco mechanismo, que produz taõ admiraveis effeitos, e para que serve tanta variedade de Cores: quando no Rubim, e na Esmeralda, naõ vemos que huma mera crystalisaçaõ; e para as outras experiencias naõ concorre, que hum pedaço de vidro, pelo qual observamos, ou hum Ponto lucido em hum ambiente escuro, ou hum Ponto escuro em hum ambiente lucido ([n. 20.]); e quando a mayor parte dos Corpos naturaes nos seriaõ igualmente uteis, sendo, ou naõ, coloridos?—Esta he huma daquellas Questoens, de que eu já fallei no Tratado ([§. 4.]); e da qual a decisaõ depende de conhecimentos superiores, e á força dos nossos sentidos, e mesmo á efficaz penetraçaõ das nossas intellectuaes faculdades. Limitemo-nos prudentemente à os factos, e ás verdades que a imparcial, e continua observaçaõ sobre elles, nos podem procurar; e deixemos de escrutar as causas primarias e ultimas, que só podem comprehender-se, pela illimitada Sabedoria de hum SER SUPREMO.

Succinta comparação das Proposiçoens de Newton, com os Principios, que presenta este Tratado.