Trajava um vestido de lhama asul guarnecido com alamares de passamanes de prata e ouro, decotado a modo de revelar todo o seu alvo pescoço e tam curto das mangas que se lhe viam quasi todas as rosadas carnes do seu braço.
Poucos pintores estudaram ainda tam bello perfil e mais alegre figura.
Eram, como dous astros de amor, cheios de ternura e limpidez os seus olhos castanhos. Não havia mãos de mais fina epiderme nem dedos de mais esmerada estructura. O contorno do nariz não cedia em perfeições aos das estatuas gregas que representam a deusa das graças e dos amores. Os labios, feitos das petalas de uma rosa, possuia-os tam frescos e delicados que pareciam de uma criança.
Quanto não valiam os seus sorrisos e que thesouros de ternura não encerravam as suas fallas!
Era alta do corpo e franzina da cintura, como devem ser, á semelhança das primorosas estatuas[{29}] de Praxitelles e de Phidias, esse ideal das artes plasticas, os contornos e proporções das rainhas da bellesa. Mais nutrida que magra assim nos braços como no rosto e, para mais se accenderem cubiças, da arca do peito avolumava-se-lhe o contorno dos lacteos pomos de que Tasso e Camões nos fizeram a descripção.
Passava já dos trinta e seis annos de edade e comtudo ninguem lhe calcularia acima de vinte e cinco primaveras: primaveras superabundantes de rosas e frescura, porque uma eterna juventude é algumas veses privilegio das mulheres formosas!
Imprimiu-lhe o infante um doce beijo na mão esquerda e, apontando para o pagem, lhe disse risonhamente:
—Apresento-vos, minha querida Violante, um bom amigo que ainda ha pouco me salvou os dias da vida.
O pagem conservou-se em mudez. Possuido de uma agradavel commoção, ajoelhou aos pés da formosa dama e não pôde elle evitar que dos seus olhos negros se escoasse uma lagrima de praser.[{30}]
Violante Gomes estreitara-o nos braços de fada e com palavras divinamente repassadas de doçura lhe rumorejou: