Dona Violante fez-lhes servir aos seus dous[{34}] hospedes, em ricas bandejas de prata, alguns doces e licores. Depois, a rogo do infante, passou com agilidade os seus pequeninos dedos pelas cordas de uma harpa e com ternissimas inflexões começou de cantar o bello soneto em que Luiz de Camões define o amor:

Amor é um fogo que arde sem se vêr;
É ferida que doe e não se sente;
É um contentamento descontente;
É dôr que desatina sem doer.

Logo que terminou levanta-se o gentil prior com todo o carinho a apertar-lhe os braços em volta da cintura e com labios de fogo imprimiu-lhe nas rosas do collo um osculo fremente.

—São estas as unicas venturas da minha alma! revelou elle ao pagem. Não vês como ella é formosa? Algum dia te contarei como nasceram estes amores...

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III

RECOMPENSA DO CRIME

Acabara de badalejar a meia noite no campanario da cathedral quando na portaria arqueada do memorando collegio de Santo Antão parou um homem de gigantea corporatura.

Vinha embuçado em um capote de fartos cabeções e equilibrava na cabeça um desses negros chapeus com amplas abas e copa sumida em fórma de funil.

Depois de relancear prescrutadoras e desconfiadas vistas, entrou sorrateiramente no alpendre[{36}] do edificio e dirigiu-se por uma das portas lateraes para um modesto gabinete situado ao rez do chão.