«—Todos pelejaremos, responderam os soldados, em defensa da lei de Jesus Christo para se desaggravar a nossa patria e manter-se a nossa gloria. Havemos de vencer. Descançae vós na nossa valentia e no despreso que temos pela morte.»
«O almirante voltou para a sua embarcação e logo se avistou o inimigo que, soltando estridentes gritos, fasia retinir todo o rio. Achava-se disposto em dez linhas e cada linha constava de seis embarcações com excepção da primeira, que era de quatro.
«Deram os inimigos uma descarga com toda[{49}] a artilharia, mas sem causarem damno algum aos portugueses. Seguidamente os almirantes arremeçaram-se um sobre o outro e ambos disputaram largo tempo a victoria até que a do almirante inimigo foi metida a pique. As outras mais proximas, atravessando para salvarem a gente que nadava, voltaram os flancos para as forças portuguesas. De maneira que essas mesmas embarcações serviam de estorvar as que vinham atraz, porque as da seguinte linha vinham de encontro ás da primeira, as da terceira contra as da segunda e assim de tal modo que se dizia combatiam umas contra as outras. Então os portugueses despediram tres descargas successivas que meteram a pique nove embarcações grandes. Abordando depois ás embarcações acheninas, saltaram dentro e degollaram dous mil soldados. Vendo o resto dos acheninos a sorte dos companheiros, precipitaram-se no rio em procura de salvamento; mas afogaram-se todos.
«Nunca se proclamou victoria mais completa nem que menos custasse!
«Lavrava todavia a consternação em Malaca.[{50}] Não chegara ainda noticia da frota desde que sahira do porto. Debalde Francisco Xavier se esmerava em socegar os habitantes e podia tanto com elles o medo, que em pouco tempo se persuadiram de ser perdida. Até alguns sarracenos tiveram a ousadia de divulgar como noticia certa que os acheninos a desbarataram completamente. A desconsolação por isso era geral na cidade e todos tornavam a Francisco Xavier a culpa de se perder a frota. O piedoso varão assegurava o contrario; mas ninguem se reconhecia no estado de crer o que elle assegurava. Accusaram-no geralmente de ser a causa de se perderem tantos homens valentes, zombando das preces que por elles fasia a Deus e disendo irrisoriamente que só lhes serviam de suffragio para suas almas.
«Por fim o virtuoso varão declarou ao povo com um profundo convencimento:
«—Deus é victorioso. Nossos soldados triunfam. Estou vendo os de Achem banhados no proprio sangue. O nosso exercito em marcha triunfante deve entrar sexta feira pelo porto de Malaca.[{51}]
«Chega entretanto Manoel Godinho e confirma tudo quanto fôra annunciado. Torna-se em viva alegria a entranhavel tristesa em que todos estavam. Os ares retiniram com voses festivaes. Divisa-se o praser em todos os rostos. Emfim entra o almirante na sexta feira pelo porto, bem cheio de gloria e carregado com os despojos opimos da batalha!»
[[6]] Moeda de ouro mandada cunhar por Dom Duarte e depois refundida por Dom Manoel. Valia 1$600 reis.
[[7]] Obr. de Sá de Miranda.