«Uma noite, referem as chronicas, os soldados do rei de Achem entraram na praça de Malaca, deram sobre as embarcações ancoradas no porto, queimaram parte d'ellas e ao romper da madrugada retiraram-se em triunfo como se tivessem alcançado uma grande victoria. Encontrando um barco de sete pescadores malaquinos, cortaram-lhes as orelhas e o nariz e com o seu sangue escreveram uma carta prenhe de[{46}] injurias ao governador Simão de Mello. Accendeu em colera tam cruel insulto os habitantes de Malaca e Francisco Xavier, movido de compaixão á vista dos pescadores mutilados de modo tam barbaro, foi o primeiro a diser que logo convinha vingar a injuria feita á nação portuguesa.

«—Não se deve, accrescentava elle, supportar semelhante violencia. Cumpre embarcar, acodir em seu alcance e tirar todo o desejo de vos insultarem segunda vez. Ainda digo mais: que sois obrigados a isso se não quereis perder o nome e a reputação.

«—Nós assim o entendemos, respondeu o governador, mas faltam-nos as forças. As vossas embarcações estão podres e incapases de servir. Para espalmar as que temos seria necessario mais tempo do que para fabricar outras de novo. De mais d'isso os inimigos são muitos e os nossos alliados não podem soccorrer-nos com tanta promptidão.

«—E não ha outras senão essas difficuldades para superar, senhor governador? lhe replicou Francisco Xavier. Pois bem está: eu tomo a[{47}] cargo o diligenciar que se concertem as embarcações.

«Voltando-se depois para os officiaes e soldados, lhes disse em voz grave:

«—Deus está pela vossa parte, amigos e irmãos, cavalleiros e soldados de Jesus Christo. Em seu nome vos advirto que arredeis do espirito qualquer temor e medo. Elle vos chama a uma guerra santa. Ou fiqueis vencedores ou vencidos, a palma sempre será vossa!

«Marcha seguidamente para o porto, onde apenas achou sete fustas e um catur á mingoa de tudo o que era necessario para se meterem ao mar. Além disso os armazens reaes estavam completamente vasios. Não havia breu nem resina nem estopa para calafetar as embarcações. Faltavam armas, polvora e outras munições para poderem combater. Recorreu então a sete pessoas abastadas e moveo-as a faser as despesas demandadas pela expedição. Dentro em cinco dias poseram-se as fustas em estado de ir a corso.

«Eram os portugueses ao todo 140 homens e embarcar tambem com elles desejava Francisco[{48}] Xavier; mas não o consentiram o governador e os habitantes de Malaca.

«O almirante portuguez encontrou no rio Parlés a frota achenina e então, saltando a um esquife, com a espada em punho visita as suas embarcações e proclama aos seus soldados:

«—Filhos de Jesus Christo, lembrai-vos das promessas de Francisco Xavier. Das vossas mãos depende a victoria. Os acheninos não nos podem fugir e agora colherão o castigo devido á sua barbaridade.