Decorreram dous minutos de tranquilla meditação e tudo ali, como se fosse o recinto de um cemiterio, permanecia completamente calado. Nem o cicio dos insectos nem as oscillações da pendula dos relogios interrompiam o silencio sepulchral do gabinete.

—Deus de misericordia! por fim proferio o padre batendo por duas veses com os punhos na arca do peito. Meu Jesus de misericordia, guiae-me como bom christão pelo caminho da virtude e fasei com que me não desampare nunca[{42}] a vossa infinita graça. Eis aqui um grande peccador que, fingindo observar todas as virtudes da religião, encoberta as chagas dos maiores vicios! Eil-o aqui, humildemente offerecendo a cabeça ao gladio da vossa punição!... Mas tende vós piedade de mim; tende piedade de mim, senhor!

Seguidamente lançou mão de um latego de rijos loros e dispôz-se, a exemplo dos mirificos varões de que nos fallam os livros de theologia, a flagellar rudemente as espaduas, os peitos e os rins.

Não desprendia da garganta um unico murmurio de dôr e todavia cada vez com mais força se redobravam os açoutes.

Sempre sereno do rosto e humilde da postura como as figuras de alguns macillentos retabulos da escola flamenga, disciplinava-se cruelmente á maneira do mais exemplar e do mais devoto dos filhos do christianismo. Se deixava de orar é porque as correas lhe açoutavam as carnes do corpo e, se parava com o castigo do latego, é porque em misticas leituras pregava os olhos nas paginas do livro.[{43}]

Esse livro abrangia mediana fórma e fôra publicado em 1492. Todo cheio de doutrinas religiosas, rescendia das suas bellas paginas os santos olores das folhas do evangelho. Era verdadeiro balsamo para o espirito de um christão e ainda hoje tanto consola o christão como o philosopho. «Admiravel apesar da negligencia do estilo, commove muito mais do que as argutas reflexões de Seneca e as frias consolações de Boeccio. Foi traduzido em todas as linguas e lê-se em toda a parte com infinito gosto. Conta-se até que um poderoso bey de Marrocos o guardava na sua bibliotheca e de quando em quando o lia com inexcedivel prazer[[8]].» Leitura sempre cheia de uncção e piedade, mereceo do sabio Fontenelle o conceito de «o mais bello livro sahido das mãos dos homens». Modestamente se intitula De imitatione Christi.

O padre todos os dias e todas as noites o folheava com beatifica e inalteravel devoção. Todos os dias passava algumas horas lendo-o umas veses silenciosamente e outras em voz alta.[{44}]

Que mistico e santo apostolo não devia de ser este padre! Quem posesse o ouvido ao ralo da porta da sua pobre cella, ouvil-o-hia pedir com profundo arrependimento aos ceus misericordia para os seus peccados e salvação para a sua alma. Para castigo dos affectos humanos, não se poupava jejuns nem penitencias. Na boca dos irmãos da sua ordem jámais no orbe catholico brilhara jesuita de maiores virtudes. Quando em reverente postura de resa e devoção se collocava defronte do seu crucifixo, logo se poderia tomar por qualquer anachoreta da Nitria. Ninguem á primeira vista o julgara desmerecedor de participar dos mais subidos panegyricos das lendas hagiolicas.

Chegou de Roma em Companhia de Francisco Xavier no anno de 1540. Elle e Francisco Xavier foram do numero dos jesuitas que o embaixador Pedro Mascarenhas solicitara de Paulo III para se dedicarem no imperio das Indias á conversão dos idolatras e ao esplendor da fé catholica. O piedoso navarro decidio-se com Misser Paulo e Francisco de Mansilhas a ir, por suas doutrinas e virtudes, ganhar entre o gentio[{45}] o glorioso titulo de Apostolo das Indias; mas o seu companheiro preferio que el-rei Dom João o galardoasse com a menos obscura e penosa commissão de director do collegio de Coimbra.

Era Simão Rodrigues,—o ladino padre mestre provincial que na sua qualidade de poderoso valido de el-rei julgava prestar mais acrisolados serviços á causa de Deus e ás venturas da patria. É certo que ao benemerito Francisco Xavier deveram as Indias uma das mais heroicas e soberbas paginas da sua epopêa. Eis o que a tal respeito apregoam as trombetas da fama[[9]]: