—Sempre lhe direi que não recebi mais de trinta escudos, rosnou elle pelo caminho.

Em seguida poz-se a cantarolar aquella sabida canção[[7]]:

Como no se desespera
quien se vê como me veo
tan lexos de dó desseo,
tan cerca dó no quisiera?

Entretanto o ecclesiastico de Santo Antão esfregava as engelhadas mãos como prova de quem se não julga de todo descontente.

—Do mal o menos, murmurou levantando-se[{40}] do tamborete. Escapou-nos por hoje, mas nada se descobriu... E que tudo se divulgasse e descobrisse? És muito anão, Dom Luiz de Beja, para ergueres o braço contra a pessoa que te mandou assassinar!

O ecclesiastico fechou o livro e deixou-se cair novamente no meio da sola do tamborete.

—Meu Deus, meu Deus! exclama então com gesto de arrependimento. As tuas doutrinas só respiram humildade e amor; queres que amemos o nosso proximo como nos amamos a nós mesmos; aconselhas o perdão das offensas e o abandono das riquesas do mundo... Mas como renegamos a tua lei e os teus conselhos, Deus meu! Entra uma vez nos seios do homem o veneno das ambições terrestres e esquecem-se bem depressa os deveres da virtude e a salvação das nossas almas. Tudo se esquece e... lá vamos nós, vermes orgulhosos, pelo menos subvertendo nas voragens do crime a tranquillidade do espirito e a saude do corpo!

Abrio mansamente o livro, entregou-se por alguns momentos á leitura d'aquelle salutar capitulo que traz por epigraphe De consideratione humanæ miseriæ[{41}] e que principia por estas palavras de humildade: Miser es, ubicunque fueris et quocumque te verteris, nisi ad Deum te convertas.

Seguidamente prostou-se o padre de joelhos e com modos de extrema beatitude fixou os olhos nas taboas do pavimento.

—Eu sei, declamou ainda, que só trabalho para o progresso da religião catholica e em beneficio da santa madre igreja. Mas o meu coração está cheio de magoa, meu Deus. São grandes os meus erros, são enormes os meus peccados!