—Deve saber vossa senhoria illustrissima que a culpa não foi nossa. Juro que não foi. Esperamol-o a sangue frio e logo, peito a peito como varões honrados, procuramos mandal-o de presente ás megeras do Averno quando os punhaes, em vez de toparem carne de christão, encontram o aço de uma saia de malha... Mas, ainda assim, tudo se remediava á maravilha: como os punhaes eram curtos, puchamos das durindanas em guisa de valentes campeões e em poucos minutos dariamos com meia duzia de cutiladas remate á nossa obra se de improviso se não intromette o demonio em favor d'elle. Um dos nossos cae por terra e os outros... os outros...
—Escusas de confessar que fugiram... provavelmente com temor de lhes acaecer a mesma sorte.[{38}]
—Não foi o temor, meu padre. Tem vossa senhoria em mim um rude servo que nunca do sitio do perigo arredou pé com medo nem covardia!
—Conheço-te bem, meu Jacobo. Faço justiça á tua valentia e espero que me toleres algum arrebatamento. O pobre velho não sabe o que diz, não sabe o que diz muitas veses... Mas dize-me ainda: que fiseste do companheiro que morreu?
—Á falta de outras virtudes, nunca me arrependi de ser prudente. A estas horas, meu padre, está elle a servir de repasto aos peixes do Tejo.
—És assisado, és assisado na verdade. Toma em paga dos teus serviços e retira-te por hoje.
Atirou-lhe o padre com um punhado de moedas de ouro e o gigante, mirando-as com olhos de cubiça, lançou com prestesa mão d'esse precioso metal que na frase de Tolentino é o tiranno do mundo.
—Sempre a vossa senhoria conheci generosidade, retorquiu elle correndo a mão esquerda pela desgrenhada cabelladura. Mas d'esta vez,[{39}] meu padre, bem sabe que tenho de repartir... Cincoenta escudos[[6]] é pouco.
—Nem um morabitino merecias ganhar, meu velhaco.
Jacobo afastou-se sem novas replicas e a meia voz foi tratando de combinar a melhor maneira de embair a boa fé do seu companheiro.