Estavam preparados com sedas e damascos os toldos e os enfeites dos escaleres reaes.
No tope dos mastareus das galeras e bergantins do Tejo viam-se tremular flammulas e estandartes de todas as nações.
É que a côrte portuguesa regalava-se com um dos mais esplendidos dias de gala.
Ao bispo de Coimbra, Dom João Soares, bem como ao duque de Aveiro, Dom João de Lencastre, fôra commettido o honroso cargo de irem buscar a Castella a princesa Dona Joanna e n'esse dia chegava esta guapa noiva á cidade de Lisboa com o mais soberbo acompanhamento de gentis-homens e equipagens que raras veses se vira em terras de Portugal.
Nada pouparam o faustoso Dom João de Lencastre nem o opulento Dom João Soares para se mostrarem com a magnificencia que competia ao seu estado e á sua posição.
Luxo e estrondo por toda a parte. Os mais ricos veludos serviam de fasenda aos elegantes[{55}] capirotes dos pagens. Eram sedas recamadas de bordaduras de ouro os vestuarios dos condes e dos gentis-homens. Custosos brocados de prata reluziam nos xaireis de centenares de ginetes e no aço polido das armaduras dos arautos e reis de armas reflectia-se o sol com raios coruscantes.
Nunca o povo de Lisboa se recordava de presencear festejos de tanta vista e de tamanho esplendor. Era grande a alegria d'elle por isso. Ao som de confusas charamelas soltava enthusiasticos vivas, e assim em infernal confusão de vivas e descantes cada vez mais accendia os seus enthusiasmos!
Ia-se acoutando o astro do dia nos abysmos do oceano, á mesma hora em que nos reaes paços da Ribeira começou a solemne recepção da princesa castelhana e do seu apparatoso cortejo.
Todos na sala do throno vestiam com o mais apurado gosto e com uma especie de luxo oriental. Eram principalmente as roupagens da rainha adereçadas da mais rica pedraria e do mais esquisito artificio. Cingia-lhe a fronte um bello diadema cravejado de perolas e diamantes. Cravejada[{56}] tambem de preciosa joalharia decorava-lhe o peito a cruz da ordem de Isabel a Catholica. O manto, finalmente, era guarnecido de renda de ouro e pespontado dos castellos e quinas de que desde o fundador da monarchia fasem uso os mantos regios[[10]].
El-rei envergava uma custosa vestidura de terciopello e cobria-lhe os hombros alentados uma opa roçagante de lhama de ouro e prata. Por cima da curta cabelleira pousava-lhe na cabeça um chapeu enfeitado com plumas brancas, de aba erguida de um lado e presilha recamada de vistosa pedraria. Emfim as bellas insignias do Tosão de Ouro assoberbavam-lhe o peito e da cinta pendia-lhe um dourado espadim em que relusiam meia duzia das mais preciosas gemmas da colonia do Brasil.