Satisfeitas as varias ceremonias e etiquetas exigidas em semelhantes conjuncturas, procedeo-se depois a um desses opiparos banquetes que entravam na lista dos praseres dos monarchas de Babylonia.[{57}]
De direito fez as honras da mesa el-rei Dom João III, ficando-lhe á dextra a princesa de Castella Dona Joanna e ao lado esquerdo o poderoso valido Antonio de Athayde. Em frente do velho monarcha sentara-se a rainha Dona Catharina de Austria, cedendo a cadeira de honra a seu filho o principe Dom João e a esquerda ao infante Dom Luiz de Beja.
Por sua grandesa e gerarchia ali estava resplandecendo tudo o que se poderá notar de melhoria nas ordens clericaes e nas raças aristocraticas de Portugal.
Não faltavam ao banquete, além dos principes e mais pessoas da familia real, o bispo de Coimbra, os arcebispos de Braga e Lisboa, o beato jesuita Simão Rodrigues, o illustre Dom João de Lencastre, o chanceler doutor João Monteiro, o desembargador Dom Gonçalo Pinheiro, o nobre Marquez de Villareal, o prudente Duque de Bragança e ainda tres dusias de lusidos personagens que na maior parte representavam a curia de Roma e as côrtes estrangeiras.
Bellos vinhos de Caparica e Seixal, bons licores[{58}] e as mais esquisitas iguarias serviam-se com profusão. Os vinhos eram de excellente paladar e por isso motivaram algumas alegres modificações no rigoroso codigo das etiquetas.
Foi Dom João III o primeiro personagem que se ergueu com a copa na dextra. Já não era o monarcha de severo e sisudo caracter. Mostrava-se de faces rubicundas, olhos risonhos e maneiras joviaes. Nunca o seu espirito se abrira com tanta expansão e tanta liberdade. Sorrindo com alegria, olhou por um momento em derredor da mesa e proferiu pausadamente as palavras seguintes:
—Sem lisonja o digo, senhores. Sobreluzem no semblante e no espirito da mui alta e excellente esposa de meu presado filho Dom João todas as graças e mais prendas que podem exornar a pessoa de uma princesa. Para goso e ventura de todos os meus vassallos imploro de Deus lhe dilate a preciosa vida por muitos annos. Sempre lhe tributarei n'esta côrte as mais ternas affeições como filha a quem muito amo e todas as homenagens como princesa das mais excelsas virtudes. Por isso é, fidalgos e prelados[{59}] da minha côrte, que eu com summa alegria do meu coração brindo agora á saude da nobre princesa Dona Joanna!
Todos os prelados e fidalgos levaram aos labios as preciosas amphoras espumantes do saboroso Caparica, ao mesmo tempo que, de pé e em reverente postura, baixaram respeitosamente para Dona Joanna as radiosas cabeças.
De branco vinho do Seixal tornou logo o monarcha a encher a Copa e novamente se dispoz a abrir os diques á sua expansiva loquela.
—Grandes e senhores da minha côrte, principiou elle, não deixarei tambem de faser votos pela existencia e ventura do herdeiro do meu throno. Piamente confio em que Deus lhe inspirará amor pela justiça, respeito ás leis do reino e obediencia ás doutrinas da nossa santa religião. Firmam-se n'elle as esperanças dos leaes portugueses e certamente meu filho se tornará digno por seus talentos e virtudes do amor dos meus vassallos. Escuso de lhe declarar as affeições do meu seio; mas saiba que eu o amo e preso como pai e como amigo. Rogarei sempre aos céus nas minhas orações lhe prospere Deus[{60}] a preciosa existencia... Que Deus lh'a prospere e viva por muitos annos o glorioso principe Dom João! Meus senhores, perorou erguendo mais a copa e a voz, viva meu filho o principe Dom João!