Immediatamente, como possuindo-se de vergonha e respeito, fugiu com prestesa da recamara.
—É certo que tambem lhe consagro eu alguma coisa mais do que amisade, ficou a rainha pensando agora. Grande coração aquelle! É capaz de todos os heroismos e todavia diante de mim parece uma criança cheia de timidez. Parece decerto uma criança. Mas quem o não é em taes circumstancias de enleio e talvez de demencia? Amor, amor! és o mobil de todas as acções esquisitas, porque és o germen de todos os pensamentos humanos. Jamais se realisam os teus desejos e todavia ninguem deixa de sujeitar-se de boa vontade ao teu jugo. Queres e não queres, acaricias e odeias, confias e desconfias de tudo ao mesmo tempo. Foi sempre voluvel o teu caracter como voluveis costumam ser as ondas do mar. És a gota de agua que fertilisa a aridez da vida, és ainda uma redoma de perfumes e um sacrario de virtudes; mas[{90}] tambem és um elemento de odios e um antro de vicios. Socrates não saberia definir as tuas virtudes; Hercules não poderia medir-se com a tua força. Homens e mulheres egualmente abrigam e sentem nas fibras dos seios as tuas chammas e os teus effeitos; porém quem logrou ainda sondar os teus arcanos, quem porventura conseguiu explicar os teus mysterios?
N'este comenos transpunha o pagem uma sala immediata á luxuosa recamara. Depois, abrindo uma porta gigantesca, predispunha-se a entrar no vasto corredor do palacio quando quatro alabardeiros do serviço particular de el-rei lhe impedem a passagem.
—Acompanha-nos, meu caro.
A esta desceremoniosa intimação de um dos quatro soldados o badage retorquiu orgulhosamente:
—Á ordem de quem?
—Manda el-rei nosso amo e senhor. Obedece!
—Preciso primeiramente conhecer-vos. Em guarda, belleguins!
O pagem desnudou a fiel espada com a ligeiresa[{91}] de quem d'ella se sabia servir a tempo e horas e, recuando tres passos, aguarda com animo frio a aggressão dos alabardeiros.
—Mãos á obra! ordena um d'elles. Faça-se por mal o que se não póde faser por bem. Pagarás cara a temeridade, meu criancelho!