Á luz baça do corredor montantes e alabardas em poucos momentos se disposeram a começar o seu officio.

Era vasto o corredor; mas todos conservavam as mesmas posições. O badage, mestre consummado no jogo da espada, não deixava adiantar uma polegada aos quatro contendores. Ninguem, resuscitando o pomposo estylo do padre Vieira, soube ainda com mais garbo e valentia brandir a lança, erguer a espada e fulminar o montante. Crusavam-se as armas, acachoavam diabolicas imprecações, empregavam-se titanicos esforços para se decidir da contenda; mas o badage parecia sustentar nas mãos de bronze a clava de Hercules.

—Com mil demos! rugiu um dos alabardeiros ao cambalear no soalho com o desiquilibrio de um ebrio.[{92}]

—Sinto-me ferido! regougou o segundo camarada ao largar a alabarda com desanimo de uma vez para sempre.

Eram agora sómente dous os inimigos do badage. Mas um d'elles principalmente não affrouxava os golpes. Era de todos o mais alentado e o mais temerario.

—Aposto que me não conheceste ainda, meu criançola!

O badage retorquiu-lhe:

—Parece-me que já nos encontramos, sicario.

—Por signal que te acompanhava um alto personagem. Bella noite aquella!

—Covarde! Eras tu quem de emboscada queria assassinar o infante Dom Luiz?