—Na verdade, monologava elle em maré de maior expansão, tem suas rasões o procedimento de Simão Rodrigues. Confesso que a sua senhoria não era affecto nem adstricto de maneira que podesse facilmente dispor dos meus serviços e, juro-o pelos Vedas, não se enganou de todo o ladino jesuita. Mas eu prometto ainda, meu padre, prometto ainda pagar-te juros e capital na mesma moeda. Pardés que havemos de saldar contas!

Só ao entardecer do quarto dia é que foi o pagem visitado. O proprio Simão Rodrigues lhe appareceu disfarçado nos trajos de familiar do santo officio.

—Não ignoras, lhe disse depois de algumas palavras de comprimento, não ignoras, meu filho, que peccados te condusiram a estes lugares. Escuso de avisar-te que, por teu mal, és accusado,[{98}] na qualidade de christão novo, de rebelde ás praticas da religião e de Deus...

—Quando se não póde esmagar a vibora, respondeu-lhe corajosamente o pagem, foge-se pelo menos da sua presença. Eu devera fugir para longe, embora procurasse nas brenhas dos sertões do Mandovy a companhia das onças e dos tigres. Mas sem cautela me deixei quedar n'este paiz de fanatismo e de crimes. Por isso me não reconheço justiça de queixar-me. Aqui me tens agora, bem disposto de alma e corpo a escutar as tuas fallas e á espera dos teus castigos. Adivinho o que me espera: antes do baraço da forca o soffrimento da masmorra, ou talvez, para mais demora das derradeiras agonias, a tortura da fogueira...

—Estranha linguagem é essa, volveu-lhe com brandura o jesuita. De certo, pobre mancebo, o teu cerebro não regula assisadamente. A falta de crenças e de fé estiolara o vigor do teu espirito. Quem te manda ser tam orgulhoso? Lembra-te que é virtude evangelica a humildade. Os humildes serão exaltados e os orgulhosos abatidos conforme a palavra infallivel do Evangelho.[{99}]

—Meu padre, embora me chames hereje ou christão novo, aprecio as bellesas e virtudes da religião catholica. Por ella abandonei as crenças de meus paes e as tradições seculares da minha raça. Voluntariamente recebi o baptismo das mãos de Antonio Criminal e desde então para sempre se inflammou no meu espirito o amor acrisolado do Deus dos christãos. De bom grado lidarei por toda a vida em defensão da cruz e da fé. Porém não quero, meu padre, seguir os teus preceitos e abraçar as tuas doutrinas, Não quero que me obrigues a pensar a teu sabor, repugnam-me todas as peias impostas á liberdade de consciencia, abomino emfim o jugo atroz a que a vossa oligarchia clerical reduz o espirito humano. De outro modo bem diverso comprehendo os deveres do homem. Não basta a Deus que o amemos sobre todas as coisas? Não basta ao rei que se seja bom cidadão? Obedecer ás leis, dar exemplos de bons costumes, estimar a familia e defender a patria: eis tudo!

—Fallas bem, mas não convences. Amor de Deus e obediencia ao rei não bastam.

—Dize-me então quaes são as leis que governam[{100}] o mundo. Explica-me todos os mysterios do teu governo e da ordem inquisitorial.

—Em duas palavras se resumem, criança: mandar e obedecer.

—Mas a quem se obedece, meu padre? A Deus, ou aos seus missionarios na terra? ao nosso rei, ou aos aulicos miseraveis que, usurpando-lhe o sceptro, abusam da indole e fraquesa do rei?