—Vou mostrar-te a quem é.

A esta laconica e mysteriosa ameaça chamou o jesuita pelo silencioso carcereiro, a quem ordenou, ainda com maior laconismo, estatelasse o pagem no segredo.

O carcereiro puchou por uma das argolas de ferro pregadas na parede e, mediante um alentado esforço, depressa fez sobresair uma abertura da capacidade de tres palmos de largo e uns sete palmos de alto.

Guardando sempre o mesmo silencio, pegou do corpo do badage como se lidasse com uma pluma de ave e, começando de lhe introduzir os pés e as pernas, fechou-o com celeridade na mysteriosa crypta.[{101}]

A nova prisão era uma especie de armario de granito cuja parte superior, á semelhança de um enorme funil, apresentava geometricamente o desenho de uma figura conica.

Sendo armario como parecia, abundava em estantes ou prateleiras, mas prateleiras de gosto e feitio a darem ideia aproximada das divisões funerarias de que se formam as capellas dos nossos cemiterios.

—Sepultam-me vivo estes sacerdotes do Senhor, pensou o pagem. Está decidido que de aqui só se vae para o ceu ou para o inferno.

Mas o pagem, mal se lhe proporcionava ensejo de criar este lugubre pensamento, viu escancarar-se de novo a tampa do seu sepulchro.

—Podes sair, ordena o jesuita.

—Bem ruim gracejo, meu padre. Julguei asphixiar como se fosse um perro. Nem luz nem ar e sobretudo um cheiro, a vermes podres que deveras me incommodava o nariz.