—Pois arrepende-te dos teus erros. Os bens da terra não os merecem os peccadores que a todos os momentos offendem a vontade de Deus. Reconhecendo as leis e o dominio da nossa ordem,[{102}] terás para sempre o socego do teu corpo e a ventura do teu espirito. Os filhos de Jesus Christo, a despeito de parecerem os ultimos pela modestia do habito, são hoje por todas as partes do mundo os primeiros na força e no poderio. Ai do insensato que julga encravar com um dedo a roda dos seus triunfos! Por isso, meu filho, expulsa quanto antes do teu seio as glorias vans do mundo secular. Em vez do gibão de velludo ou do cossolete de aço polido, enverga o saio de estamenha e abraça o lenho sagrado de Jesus Christo.

O jesuita, deixando novamente a sós o badage, retirou-se a passo lento.

Vendo-se agora o badage n'quella solidão tremenda, por mais uma vez relanceou as vistas em redor do carcere.

A argola puchada pelo carcereiro inflammou-lhe a imaginação e, querendo descobrir o segredo de outras argolas identicas, adiantou-se em direitura da parede.

Á imitação do homunculo, puchou com força. Era uma argola de ferro carcomida pela ferrugem de alguns annos. Ella parecia ceder ao primeiro[{103}] empuxão; mas ficou segura e fixa como se a pretendesse abalar o pulso de uma criança. Novo empuxão com maior violencia e ainda, todavia, se não obteve mais feliz resultado.

—A questão é de geito, considerou o pagem.

Com effeito, sem exigir metade do esforço a argola cedeu á sexta ou setima tentativa.

No bojo da parede, ainda que de fórma differente do armario de granito onde fôra introduzido o badage, manifestou-se uma crypta de genero egualmente lugubre. Formavam-na quatro paredes escuras de dez ou doze palmos de largo e deseseis ou desoito palmos de altura. Nada inculcaria de notavel a não ser uma especie de feretro levantado no centro do pavimento. O feretro, que era fabricado de pedra tosca em harmonia com todo o escondrijo, servia de asylo a um esqueleto de mulher. Os braços e tronco, as pernas e a caveira ali se viam com a pelle arroxeada e os ossos amarellecidos pelos effeitos da podridão.

O badage, pensando na sorte das malaventuradas creaturas, sentiu ainda mais activa a prurigem da curiosidade. Não cuidando de fechar[{104}] a porta do escondrijo, lembra-se de percorrer a trechos a parede. Lançou as mãos a segunda argola e eis que lhe apparece novo escondedouro. Não tem sarcophagos, nem feretros, nem prateleiras, nem divisões. Menos alto do que largo, é simplesmente uma grande caixa de pedra. No pavimento amontoam-se braços encrusados, pernas desconjuntadas e caveiras ás duzias. Era uma pilha putrefacta e immunda de caveiras e esqueletos humanos: um repulsivo e fetido ossario emfim.

Nuvens de fumo espesso e acre vieram entretanto invadir pouco a pouco o espaço do carcere. Cada vez se pronuncia mais um cheiro violento de substancias asphixiadoras. Ficam por todo o espaço predominando esses dous inimigos dos pulmões: o acido carbonico e o acido sulphydrico.