O jesuita fallava assim:
—Pagem, quiz ganhar de el-rei o vosso perdão. Mas el-rei nosso amo não quiz perdoar os[{120}] vossos crimes e vós, convicto do crime de heresia, no primeiro domingo do Advento padecereis como christão novo o supplicio da fogueira. Encommendai a vossa alma a Deus...
O badage, desfechando uma risada, em bom genio redarguiu:
—Não careço do teu perdão, meu padre. Agora na minha presença deixarás de ser o provincial Simão Rodrigues: és simplesmente um reptil, um covarde, um malvado... Queres ainda lutar comigo? Braço a braço, esmago-te!
—Assim, assim, meu valente! Esmague-me essa vibora! jarrete-me esse verdugo!
Apenas o carcereiro desprendera das fauces tam rudes imprecações, o jesuita impallideceu como um cadaver. Comprehendeu o conluio; adivinhou que se trocaram os papeis. Em vez de mandar e ser obedecido, restava a Simão Rodrigues o papel de obedecer como escravo. Lance desesperado para o seu orgulho!
—Estranho o vosso procedimento, desabafou emfim. Insensatos que sois! Por ventura me faltareis á obediencia? Por acaso attentareis contra a minha vida? A minha vida pertence á[{121}] igreja e a Deus. Cautela com a maldição de Deus!
De nada, porém, valeram os argumentos. Carcereiro e encarcerado abafaram com um lenço a boca de Simão Rodrigues, por detraz das costas amarraram-lhe os braços com um pedaço do sambenito despido pelo badage e, como se faz a uma rez no matadouro, jungiram-no pela gorja a uma das argolas do carcere.
—Vamos deixar-te agora, proferiu o badage. Ficarás ahi, filho de Torquemada, entregue ao arrependimento e ao remorso dos teus crimes. Não teve força nem coragem el-rei Dom João III para reprimir as tuas ambições e castigar os teus delictos. Pois desempenho eu os deveres do rei! Para bem do povo e desaggravo da humanidade faz-se mister que desappareças da face do mundo e que tambem desappareça comtigo essa ordem de viboras e de tigres que para desdita nossa introdusiste de Roma nos reinos de Portugal. Adivinhas o que te vai succeder? Adivinhas por acaso? Desapparecerás para sempre, Simão Rodrigues. Antes de meia[{122}] hora será o teu corpo um esqueleto e esse esqueleto se redusirá a um punhado de cinzas!
Em seguida desprendeu dos pilares da abobada uma lanterna e com a chamma do pavio incendiou as roupas talares do jesuita.