Começando então de atear-se uma labareda fumegante, logo os dous companheiros a passo lesto se dirigiram para o umbral da porta e assim sem saudades abandonaram aquella horrenda masmorra.
XI
A TAVERNA
O carcereiro e o pagem toparam-se defronte do sombrio edificio de San Domingos por altas horas de uma noite escura como breu e sem ideias determinadas sobre a melhor direcção que lhes convinha aproveitar.
Era certo que por longos momentos não podiam ali permanecer sem o risco de serem percebidos e presos. Mas, em conjuncturas de indecisão, quem se lembra de acodir convenientemente pela propria segurança? Viam-se em liberdade e esse unico bem lhes parecia a suprema fortuna. A largos sorvos aspiravam as[{124}] emanações puras da noite e com as vistas abrangiam o espaço immenso onde volitam os astros. Pisavam aquelle chão por cem veses trilhado pelas doloridas plantas das victimas inquisitoriaes. Por ali passaram em companhia do carrasco e dos defensores da cruz algumas dusias de martyres envolvidos na samarra e cobertos das terriveis carochas sarapintadas de chammas e demonios. Mas, ainda assim, que feliz differença se se comparava a sombria praça de San Domingos com as estreitas e miasmaticas gemonias onde o corpo se esquartejava no excesso das torturas e a consciencia desfallecia á mingoa do ambiente da liberdade? Entretanto os dous foragidos, como julgando-se proximos de um foco de miasmas e de peste, reconheciam a necessidade instinctiva de se desviarem para longe. Não tinham pensado ainda na escolha do refugio. Lisboa, essa decantada sultana de marmore e granito a não invejar bellesas a Stambul, era cidade grandiosa e opulenta, era então, como a soube descrever um dos mais sympathicos engenhos da moderna geração, a «perola das cidades do mundo, a Phryné das capitaes[{125}] da Europa, a terra do luxo, dos praseres, das ostentações e das grandesas.»[[16]] Não lhe faltavam palacios nem choupanas, igrejas nem tavernas. Mas o olho dos activos inquisidores, Argos da peor especie conhecida, com tanta facilidade se estendia aos santuarios de Christo como sobre os santuarios das familias. Nada aos filhos de Loyola e aos discipulos de Torquemada lhes era vedado nem recondito: o seu fim predilecto e a sua ambição natural eram avassallar o mundo, eram enroscar-se como serpente gigantesca, desde as raises ao vertice da ramada, na arvore do universo!
Por fim os miseros foragidos tomaram uma subita deliberação. Dirigiram-se para o palacio hospitaleiro de Violante Gomes.
Apesar do prolongado e tardio da noite, ainda a formosa dama não se entregara aos dominios do somno. Entretinha-se a desferir da sua harpa de ebano e marfim alguns ligeiros acordes repassados de ternura e melancolia.
A principio sobresaltou-se e estremeceu com[{126}] a presença dos estranhos hospedes; mas logo com um sorriso feiticeiro de meiguice e suavidade se dirigiu ao indio:
—Por acaso, meu esforçado amigo, tendes algumas aventuras mais?