—Aventuras sérias, respondeu o badage com signaes de desanimo e tristesa.

—Não percebeis quanto sinto os vossos desgostos. Mas a culpa não será vossa? Porque não gosaes a vida em socego, sem vos importarem os negocios do estado e os interesses alheios? Vós, os homens, tendes todos o espirito mordido pelo sarcopto das ambições. Nada vos contenta.

—O destino assim é. Arrasta o nosso espirito para o bem ou para o mal do mesmo modo que succede a uma lasca de taboa ou a um pedaço de cortiça dominado pelas ondas do mar. Fica-me porém a consolação de que nunca a minha consciencia se encaminhou para o mal.

Inesperadamente sentiu-se um alteroso arruido. Algum serio acontecimento se passava no largo do Rocio. Nem mais nem menos: o palacio de Violante Gomes fora assediado por[{127}] uma turba sediciosa e infrene de alabardeiros e familiares do Santo Officio.

Não era agradavel nem segura a posição dos foragidos das gemonias inquisitoriaes. Escapar, seria negocio difficil. Combater, seria temeridade com todos os visos de loucura. Sem embargo o indio não desanimou nem tremeu.

—Senhora, disse para Violante Gomes, os vossos hospedes são incommodos e perigosos. Por isso vos disemos adeus até melhor occasião. Vamos ao encontro dos inimigos...

—Loucos! acodiu a esbelta dama. Deixai as escadas e vinde por este sitio. Segui-me depressa!

Violante Gomes, allumiada por um castiçal de prata, adiantou-se por um corredor estreito, subiu os degraus de umas escadas mais estreitas ainda e chegou ao recanto de uma saleta desguarnecida.

—Já, já! Apressai-vos a abrir essa janella. Deita para os telhados visinhos e, tres ou quatro varas além, podeis escapulir-vos com segurança. Não afianço que não haja perigo...

—Podemos cair dos telhados á rua como dous gatos ou dous perros, então regougou pela[{128}] primeira vez o ex-carcereiro. Mas nada de sustos. D'entre dous perigos escolhe-se o menor.