—Puf, meu valentão das dusias! Lerias tuas é que pouco me importam. O que mais quero é que me paguem e tu, se herdasses a vergonha[{131}] dos homens honrados, não me punhas mais as patas de portas a dentro.

—Uum, uum! Pois isso vai assim, grande lorpa! Toma lá pela injuria...

Logo na face cadaverica do vendeiro estalou uma punhada gigantesca. O vendeiro quedara a principio silencioso e soffredor como uma estatua; mas depois com a ligeiresa de um tigre pegou pelo bojo de um cangirão quasi cheio de vinho e, ministrando-lhe a força de um punho de Sansão, em um apice o arremessou á cabeça do aggressor. O barro quebrou-se em pedaços e dous jorros de sangue borbulharam da testa em que elle bateu.

Immediatamente, em guisa de campo de batalha, se estremaram dous partidos. Em todas as mãos luziam aos reflexos das candeias facas e punhaes. Metade dos fregueses predispunha-se para a defesa e outra metade para a investida.

—Vaes levar a tua conta, meliante!

—O vendeiro teve rasão...

—Rasão vamos ver quem a teve! Trocaram-se estas rudes ameaças em um[{132}] abrir e fechar de olhos. Eram o preludio de uma contenda furiosa entre dusia e meia de ebrios e malvados, homunculos sem consciencia do bem e do mal, tam lestos em derramarem o sangue das veias de seus irmãos como em beberem até aos bordos um cangirão dos saborosos liquidos extrahidos das parras do Seixal.

Foi então que o ex-carcereiro e o badage reconheceram a necessidade de entrar na taverna.

—Meus rapases, fallou-lhes o badage, não estamos em maré de bulhas e rixas com amigos. O valor e a coragem podem experimentar-se em outra liça. Quereis mostrar-me agora que sois valentes, meus rapases?

—Topa-nos ás ordens, fidalgo! Mas primeiro deixe-nos dar uma tosquia a taverneiros desaforados.