O vendeiro estava já bem seguro pela gola da jaqueta. Miguel, querendo vingar-se da ferida, ergueu o braço musculoso e ia sem clemencia descarregar-lhe sobre o peito a lamina do seu punhal. Mas o golpe falhou. O badage[{133}] segurou com força extraordinaria o braço que sustentava o punhal.
Então o barulho arrefeceu e aquella corja de ebrios, baixando as facas e os punhaes, pediu e celebrou tregoas.
—Disei-me pois, dirigiu-se-lhes novamente o badage, se quereis ou não quereis provar o vosso valor e a vossa força. Preciso do serviço dos vossos braços, meus rapases.
—Fidalgo, responderam logo, diga lá o que nos quer.
—Toca a beber primeiro, volveu o badage. Quem paga é a minha bolsa. Venha lá do melhor e do mais caro: Seixal ou Caparica do mais velho.
O vendeiro apresentou seguidamente seis garrafas cobertas de pó e foi despejando as primeiras duas no bojudo cangirão.
O badage pegou da vasilha e dispôz-se a offerecel-a a cada um dos homunculos. Cada cangirão mal chegava para quatro bebedores, mas á medida que se esvasiava não se esquecia o taverneiro de o reencher até aos bordos.
Todos beberam á vontade em menos de meio[{134}] quarto de hora e como o badage tivesse pressa de lhes aproveitar os serviços tratou de conduzil-os em direitura do Rocio.
—Adeus e obrigado, disse para o taverneiro. Ahi tens um ducado de ouro de lei. Guarda-o em paga do teu vinho.
—Obrigado lhe digo eu, fidalgo. A despesa está paga. Não aceito o dinheiro de vossa senhoria e ainda lhe fico devedor de muito mais.