O infante Dom Luiz desembuçou a capa de veludo, mostrou ao povo o seu rosto sympathico e com serenidade lhe fallou assim:
—Ordem, ordem! El-rei deseja e estima a vida dos seus vassallos. Não quer que elles vertam o seu sangue de tal sorte. Cobrai tento e socego, meus amigos!
Entretanto um dos mais inquietos e terriveis contendores foi pouco a pouco recuando com a espada em punho até se aproximar do infante. Não recuava de susto ou por impulsos de fraquesa, que nunca o seu espirito fôra abalado pelo medo nem os nervos do seu braço jámais affrouxaram nas conjuncturas do perigo.
—Debalde gastaes a paciencia e o tempo, lhe segreda. Esta corja infrene e rebelde que nem de filhos de Satanaz, decerto vos não obedece nem respeita.
Não lhe sobejou ensejo de alongar o discurso. Um troço de aggressores armados de alabardas e espadas, de picos e ascunhas investiu contra elle ao grito diabolico de—morram os hereges, morram os traidores![{142}]
—Morram, morram os judeus e os hereges! conclamaram logo de todas as partes.
O infante, desnudando a espada, enrostou com a massa dos aggressores. Elles porém, demovidos pelo respeito e pela estima que todos professavam pelo irmão de el-rei, suspenderam o passo.
—Ousareis porventura, lhes disse, erguer armas contra o irmão de el-rei?
—Não queremos offender vossa altesa, responderam do meio dos aggressores. Queremos só esse herege e esse criminoso que ahi está. Esse buscamos, buscamos esse só.
—Que me quereis então? proferiu com sobrecenho e desassombro aquelle que indigitavam.