—A vossa cabeça. A vossa cabeça de traidor para a ponta das nossas lanças e o vosso corpo de herege para a fogueira do Santo Officio.
—Rapases, retorquiu o infante com asedume, a el-rei sómente incumbe o castigo. Não vos é dado justiçar por vossas mãos. Se ha ahi algum criminoso, os juises de el-rei o tem de punir segundo as leis e usos do reino.[{143}]
—Diz bem o senhor infante, concordaram alguns dos representantes da populaça.
—Ide-vos em boa paz então. Restabeleça-se a ordem e haja por toda a parte socego.
—Mas quem nos responde pelo herege? Quem nos responde por elle?
A estas interrogações dos mais exigentes, accrescentaram ainda algumas voses:
—Sem castigo não deve ficar. É de justiça, é de justiça que seja punido...
—Será feita justiça, retorquiu o infante. Prometto-vos debaixo de minha palavra de Prior do Crato e, o que não vale menos, de leal cavalleiro, que o levarei á presença de el-rei para que se faça justiça rigorosa.
Seguidamente pela Bitesga e outras ruas dispersou-se pouco a pouco a sediciosa turba. O infante Dom Luiz acompanhado pelo badage, esses meteram pela rua da Palha em direcção aos paços da Ribeira.
—Decerto cumprirá vossa altesa a sua palavra? inquire o badage a meio do caminho.