—Sinto, meu amigo, que me reservasses o[{144}] officio de carcereiro. Mas confio que meu irmão e senhor não deixará de vos tratar bem.

—Alimenta vossa altesa mais esperanças do que as que eu nutro. Do animo generoso de el-rei pouco espero. Desconfio que precisa a guela d'aquelle serenissimo sapo de mais uma doninha...

[{145}]

XIII

O LEITO DA DOR

As festas e os folgares não se interrompiam nos alegres paços da Ribeira. Comtudo não havia remedios nem divertimentos que restabelecessem a saude do joven herdeiro da coroa.

A maior parte dos dias passava-os elle de cama. Acommettera-o grave enfermidade. Queixava-se continuamente de dores de entranhas e revoluções de estomago. Emmagrecia a olhos vistos e a cada hora mais se lhe pronunciava a debilidade do corpo.

Á sciencia medica os symptomas e o caracter do mal não despertavam todavia os minimos[{146}] cuidados. Effeitos do fastio e consequencias de debilidade, eis a opinião uniforme de todos os Esculapios e Galenos da côrte. Mas é certo que sua altesa peorava de dia para dia. Pouco a pouco encovavam-se-lhe os olhos, entesavam-se-lhe os dedos, empallideciam-lhe as faces, afilava-se-lhe o nariz, destingiam-se-lhe os beiços e enfraqueciam emfim todas as carnes e todos os musculos.

Nada o entretinha nem consolava. Até os seus dilectos livros e os seus estimados trovadores lhe enfastiavam agora. Já não dava apreço ás quintilhas de Francisco de Sá, á Diana de Souto Mayor nem aos autos de Gil Vicente. Consumia todo o seu tempo em suspiros e lamentações. Á proporção que lhe desfalleciam as forças do corpo, iam-lhe fugindo do espirito a coragem, a resignação e a paciencia.

Scena enternecedora em verdade era vel-o carpir as desditas da sua mocidade quando a esposa delicada e nervosa o procurava alentar com o balsamo das esperanças e dos carinhos! Era o seu anjo tutelar a fiel e amoravel esposa. Jamais lhe abandonou o leito da dor e todos[{147}] seus thesouros de ternura com elle os gastava generosamente. Nunca seios de mulher compartilharam assim das amarguras alheias.